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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Com que escola eu vou?

            Em Educação, temos que considerar sempre duas vertentes que deveriam convergir para um resultado de excelência ao final do processo: a Escola e a Família. As famílias escolhem as escolas de acordo com diretrizes gerais, normalmente não definidas com clareza e por vezes sem critério algum – salvo os mais fúteis, como no caso de considerações sobre o status que o estabelecimento pode dar e o prédio onde está instalada. Poucos são os casos onde são levados em consideração critérios mais profundos, até porque a grande maioria dos pais e mães não dispõe de conhecimento para tal. Parece muito crítico, mas a experiência de anos na direção de escola me dá condições para fazer essa análise radical.
            Não tomem os pais essas palavras como uma crítica direta, porque entendo perfeitamente que a falta de conhecimento na matéria nos leva a decisões possíveis, e não às desejáveis. Isso vale muitas vezes para alimentação, médicos, enfim...
            Mas quais são os critérios que levam a família a determinar em que escola seus filhos irão estudar? Uma pesquisadora americana, Su Yeong Kim, da Universidade do Texas, classificou as famílias em quatro grupos (relapsas, apoiadoras, autoritárias e tiranas). São designações dadas a famílias americanas, e fiquei me perguntando se no Brasil temos outros tipos de pais ou se seguimos o mesmo modelo. Cheguei a algumas conclusões sobre a tipologia dos pais, conforme abaixo:
- Relapsos – aquele que não sabe o que está ocorrendo com seu filho e espera, sempre, ver resultados para depois analisar o que aconteceu. Não sabe sob que interferências a criança está vivendo e não nota os progressos que vão acontecendo. Não deixa que as crianças tentem resolver seus problemas, até porque acham que elas não têm problemas. É desorganizado, não sabendo o que quer da escola e muito menos onde quer chegar ao final do processo.
- Apoiadores – aquele que está junto, colaborando para o progresso do filho e analisando a cada momento o processo, não deixando para o final. Permite que a criança faça escolhas e entende cada progresso como uma etapa que foi vencida. Acompanha, de verdade. Entende a curiosidade da criança e sabe que ela precisa de leveza para poder aprender. Não faz pressão. É organizado, mas muitas vezes perde o foco, pois a criança não tem o mesmo ritmo de forma constante.

- Autoritário – decide tudo. Olha e imediatamente faz pré-correções, sem deixar margem para variações pelo caminho. Não pensa muito no presente porque tem um futuro pré-planejado de acordo com suas convicções. Não leva em consideração qualquer argumento da criança e principalmente não compreende o ritmo próprio de cada uma. Por não entender o momento individual, diminui a criança frente a seus pares. Toma as decisões sozinho, sem levar em conta o (a) parceiro (a). É organizado e metódico, levando a criança a reboque.

- Tirano (ou Tigre) – Não tem o menor compromisso com a felicidade no presente, decide o que acha melhor e faz do filho uma máquina de aprender. Muito severo, não considera que a criança tem necessidade de lazer e faz tudo pela excelência. Não consegue perceber que a criança pode ser. Não consegue perceber que a criança pode ser responsável. Chama toda responsabilidade para si, também toma decisões sozinho e não ve no parceiro um auxilio para as tomadas de decisões. Organizado demais sem levar em consideração que a criança esta em desenvolvimento;


-Submisso – aqueles que não mandam em seus filhos. Mesmo quando a criança não tem condições para decidir alguma coisa, acham que ela tem que ser ouvida. Quando as coisas desandam, não sabem identificar de onde veio o erro. Tem crianças que parecem “reizinhos”, mandando nos pais e, por consequência, em toda a família. Geralmente são pais inseguros que mudam de opinião a qualquer momento. Não tem muito compromisso com o futuro e querem o “aqui e agora”. Como quem dita as normas são as crianças, não conseguem se organizar nunca.

- Colaborador - Aquele que decide, mas observa atentamente o filho para ver os acertos e erros e faz as correções rapidamente. Manda na criança, mas sabe acompanha-la a cada etapa do desenvolvimento para não errar quanto as decisões. Segue o ritmo da criança e observa suas habilidades. Aos poucos vai dando autonomia para que a criança aprenda a dividir com seus parceiros de brinquedos. É muito amoroso, mas firme quanto as ordens dadas. Organizado, levando em consideração a criança;

            Quando os pais misturam as suas características a coisa tende a ficar problemática – um ponto acima do que estamos acostumados a ver. Querem ser do tipo “colaborador” em casa e ao mesmo tempo ter uma “escola autoritária” onde seus filhos estudem – ou vice-e-versa. Isso não dá certo, é claro, porque a mistura inevitável causa uma enorme confusão nas crianças. Elas não ficam sabendo o que realmente a família espera deles.
            Temos também a mistura entre os próprios pais, quando a mãe pensa de uma maneira e o pai de outra, antagônica, e não combinam como educar a criança. Há ainda uma variável onde os avós interagem diretamente, participando de forma ativa na formação de seus netos e agindo nem sempre de forma harmônica com aquilo que os pais estão tentando implementar.
            O fato é que, seja lá como forem os pais, é preciso que a educação dos filhos seja orientada de uma maneira clara. Pense em que tipo de pai você gostaria de ter e que pai você pode ser. Fazer um acordo dentro de casa é fundamental para não gerar insegurança na criança em seu processo de desenvolvimento. Seu filho deverá saber o que você quer e o que espera dele. Naturalmente, isso não precisa ser dito, mas precisa ser “sentido” por ele. Deve haver uma combinação explícita sobre isso entre os pais e familiares que venham a ter contato e influência sobre a criança.
            É claro que é a partir do tipo de família a que você pertence que será tomada a decisão da escolha da escola. E existem escolas para todos os tipos de família, é claro. A situação tende a ficar grave quando a família tem um ideal que a escola não acompanha, gerando todo tipo de desconforto e naturalmente, prejuízo para a criança. Quando você sair em busca da escola de seus filhos, analise o modelo de sua família, dos componentes da mesma, e veja o que mais se adequa às suas convicções, sem esquecer que em casa o mesmo padrão deve ser seguido. Senão a confusão é total.

            A parceria escola/família é essencial, sempre.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Seguindo as Regras


O desespero de ter que tomar uma decisão sem saber como
   Fui cortar o cabelo. Peguei uma revista e fiquei aguardando enquanto o cabeleireiro fazia seu trabalho. De repente, uma entrada retumbante no salão: pai, mãe e duas crianças. A mais velha tinha uns 4 anos e a mais nova não mais do que dois anos. A mais velha gritava, chorava, esperneava e dizia o tempo todo que não queria cortar o cabelo. Enquanto isso, os pais se desgastavam dando explicações lógicas sobre as enormes vantagens de cortar o cabelo. Entre os vários argumentos um deles era de que não doía! E para provar isso ela, a mãe, iria cortar também, etc, etc. Mas nada demovia a criança de continuar seu escândalo. Num gesto desesperado, o pai prometeu que, quando saíssem do salão, iriam a uma loja de brinquedos e ela poderia comprar o que desejasse. E nada...
   Já perdendo a paciência, o pai entra em campo novamente com a afirmação de que, se ela não cortar o cabelo, vai para o castigo quando chegar em casa. E ... nada. Segue o escândalo, agora dois tons acima!
   Fiquei observando que todas as pessoas presentes no salão, clientes da casa, começam a ficar nervosas vendo aquela cena, mas os profissionais se mantêm distantes do conflito. Tudo descambando para um estresse total, num local e numa situação onde isso não seria realmente necessário ou conveniente.
   Tendo acabado meu corte de cabelo, aproximei-me da família e me apresentei. Perguntei se poderia auxiliá-los no problema e o pai imediatamente aceitou a ajuda. A mãe ainda ficou olhando com dúvidas quanto ao “milagre” que eu queria fazer, quando ela já tinha tentado de tudo.
   Expliquei a eles que a questão ali era de decisão. A criança estava sofrendo muito por não ter elementos para tomar uma decisão e eles, por serem um casal jovem, estavam inseguros frente a solução que iriam dar para aquilo. Ficavam explicando, explicando, e não decidiam realmente nada. Repassavam a responsabilidade para quem estava menos preparada para decidir, ou seja, a própria criança.
   Sugeri então que dessem uma ordem firme, colocando a criança no colo de um dos pais e sinalizando claramente a ação. O pai se colocou como agente ativo e, não dando nenhuma opção, deu ordem para iniciar o corte do cabelo. A criança rapidamente parou de chorar e o corte de cabelo pode ser feito, passando a ser alvo da curiosidade da própria criança.
   Conversei com a mãe sobre as Regras, explicando que até os 7/8 anos de idade, as ordens tem que vir de fora (Heteronomia) e que a criança fica insegura se tiver que decidir. Falei também que não prometessem brinquedos ou coisas semelhantes como premiação por algo que a criança teria que fazer por ser necessário. Presente devem ser oferecidos nas datas específicas onde fazem sentido, como aniversários, Natal, Páscoa, etc. Enfim, conversamos objetivamente sobre a questão.
   Caso resolvido, família feliz e agora entendendo como as crianças ficam felizes quando as ordens são dadas com calma e determinação. O mais interessante é que os profissionais do salão disseram que situações como essa são uma constante porque os pais não dão ordens e as crianças fazem sempre aquele escândalo para cortar o cabelo.
   Como orientação final, seja sempre firme quando a situação exigir, para proporcionar segurança as crianças. Se elas sentirem que seus pais ou os adultos que as acompanham estão seguros, terão a maior tranquilidade em seguir as orientações decididas por eles.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

RESPONSABILIDADE: ASSUMA A SUA


Você chega em casa, cansado de um dia de trabalho, todas as aporrinhações do mundo batendo à sua porta, e vem seu filho e diz que precisa conversar. Você senta no sofá e se coloca a disposição para o papo.
- Olha, tomei algumas medidas para tornar minha vida do jeito que eu quero, e vou falar agora sobre as coisas que tenho em mente. Preparado?
- Pode falar filho.
- Primeiro, não tomo mais remédio para bronquite. O gosto é ruim, e eu acho que é melhor tomar o remédio de reumatismo da vovó que tem sabor cereja.
- Certo filho, que mais.
- Não vou mais a fisioterapia porque acho que o braço que eu quebrei está bom, e inclusive vou tirar o gesso hoje na banheira, como vi na internet.
- Certo filho, você é quem sabe.
- E vou passar um tempo na casa de um amigo que mora num quilombo para entender umas coisas que não consegui entender. Não me esperem para o Natal.
- Tá bom filho, você decide. A responsabilidade é sua.
Fácil assim não é mesmo? Mas imagino que as coisas não se desenrolassem dessa maneira, porque as decisões estariam sendo tomadas por alguém que, aos 10 ou 12 anos não teria condições de medir as consequências de seus atos.
No entanto, ao contrário do que poderia acontecer a 20 anos atrás, tenho visto muitos, mas muitos pais mesmo, deixando os filhos decidirem sobre a escola em que vão estudar. É uma transferência de responsabilidade grave, porque a mesma determina o futuro dos filhos sendo que eles não tem a menor condição de fazer a opção mais adequada. Seria o mesmo que permitir que as coisas se desenrolassem como no diálogo acima, ou mesmo obrigar a criança a escolher seu médico. Nosso papel como pais e responsáveis é exatamente o de suprir aquilo que as crianças não tem condições de fazer. Por isso existe a figura jurídica do “abandono de incapaz”, quando expomos crianças a situações que elas não podem resolver sózinhas e ficam em risco de vida por conta disso.
A diferença entre deixar uma criança trancada no carro quando se vai às compras e permitir que ela decida sobre seu futuro num momento em que não tem condições, é praticamente nenhuma. Até porque, depois de tomado o caminho, anos depois, quando se constatar o desastre, será tarde demais para tentar consertar qualquer coisa.
O fato é que, normalmente, reagimos rapidamente e de forma eficaz quando vemos alguma coisa física, como uma fratura ou machucado, ou mesmo uma tosse ou febre. No entanto, quando estamos lidando com o sofrimento psicológico, as reações são mais lentas ou mesmo inexistentes. E o sofrimento existirá, em algum momento, se a criança fizer a opção, e não o adulto. Se nós já erramos bastante por falta de conhecimento, de tempo, de interesse objetivo, imagine alguém que não tem elementos minimos para tratar do assunto com consistência?
Bem, como educadora, recomendo enfaticamente a postura firme nessa hora, com uma decisão madura e orientada dos pais. A falta de valores e determinação vai acarretar em problemas, mais cedo ou mais tarde. Chega a hora em que temos, como pais, que ser firmes e dizer “você vai fazer isso”! Caso contrário, fica até mais fácil dizer ao filho, quando tudo der errado, “foi você quem decidiu”. Mas vamos e venhamos: isso é não assumir a responsabilidade e ter que arcar com as consequências do mesmo jeito.
Vamos escolher para nossos filhos e dizer a eles que temos a convicção do que é o melhor para eles naquele momento. Escola não é ítem de consumo como roupa ou sapato, mas sim o elemento mais importante na formação deles. É na escola que ele vai desenvolver coisas essenciais, como a MORAL ou a ÉTICA. Só a educação tem o poder transformador em uma sociedade. Não escolha a escola apenas pela aparência, mas principalmente veja a ideologia.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A Escolha de Sofia :: a decisão cruel



Esse foi um filme que me chamou a atenção e ficou gravado na minha memória, pela dramaticidade de tomar uma decisão que pode definir a vida de quem amamos. Como pode uma mãe ter que fazer uma escolha entre seus filhos, decidindo seu futuro? Mesmo que, em certas circunstâncias isso seja inevitável, ainda assim é cruel.
   A vida nos coloca em situações surpreendentes, para as quais não estamos preparados pelo inusitado das mesmas. Escolher uma escola é uma daquelas coisas que podem atingir um nível de complexidade muito grande, e considero essa uma situação tão séria que já escrevi anteriormente uma artigo sobre isso. Mas volto ao tema porque tem um significado especial para mim, como educadora, e acredito que para muitos que estão envolvidos com a criação dos filhos.
Existe um período do ano em que o movimento de busca da nova escola se torna um assunto prioritário. Mas a discussão geralmente gira em torno do preço da escola, e não de outros elementos que, no final das contas, são os mais importantes. Para a grande maioria, escola é CUSTO e não INVESTIMENTO, o que significa que em princípio, a decisão final fica comprometida com valores que a longo prazo são os menos importantes.
Tenho em mente que o Estado deveria oferecer ensino gratuito para toda a sociedade, com a mesma qualidade, focado no desenvolvimento de nossas crianças e adolescentes, mas é fácil constatar que isso não aconteceu, não acontece e está longe de acontecer, infelizmente. E vamos desperdiçando essa enorme massa de capital intelectual ano a ano, geração a geração. Para conseguir algum diferencial, famílias fazem esforços sobre-humanos para optar pela qualidade e não pelo preço. A decisão é difícil, frente as limitações impostas por um sem número de ocorrências, mas o que fica claro no médio e longo prazo é que Educação é o melhor investimento que podemos fazer em nossos filhos. E a Escola é o canal para ver acontecer, num futuro não muito distante, o acerto da decisão.
Por que tantas famílias preferem apresentar um belo carro enquanto seus filhos frequentam uma escola de qualidade duvidosa e preços módicos? Um símbolo de status em detrimento do futuro dos filhos... Visto sobre esse aspecto, é inacreditável, não é mesmo?
Meus pais, ao longo de toda a vida, foram muito enfáticos ao afirmar para seus sete filhos, que não teríamos herança alguma salvo a escolaridade e qualquer coisa que quiséssemos estudar. Mesmo para os filhos já adultos, e até casados e pais de filhos, eles sempre fizeram questão de pagar os estudos tais como universidade, pós graduações, cursos de aperfeiçoamento e tudo o que fosse nos levar a um patamar superior em termos culturais e intelectuais. Não deram carros ou apartamentos a ninguém, mesmo porque a vida sempre foi difícil e em uma determinada fase, terrivelmente problemática, com as perseguições do regime militar impedindo que meu pai conseguisse um emprego mesmo medianamente remunerado. Mas, ao final todos foram bem criados e bem educados.
Hoje, papai é bem velhinho (completou 90 anos em 2011). Mamãe faleceu há 30 anos. Ele tem certeza de que fez o que achou certo e que todos os filhos hoje, estão com suas vidas organizadas e intelectualmente ativos e produtivos. E frente a esse exemplo, fico me perguntando porque o mundo mudou tanto de lá para cá, tendo a esperança que os valores dele sejam retomados em algum momento pela sociedade - sim, porque não foi só ele e minha mãe que tiveram atitudes como essa.  O fato é que fica patente que, para obter melhores resultados em termos de oferecer um futuro melhor para nossos filhos, precisamos escolher o melhor em termos educacionais, mesmo que deixemos de comer em restaurantes da moda ou possuirmos “o carro”.
E a “Escolha de Sofia”? Bem, a história me voltou a mente quando vi uma família composta de mãe e dois filhos, sendo submetida a esse dilema. A mãe só vai poder pagar a escola de um dos filhos, e terá que matricular o outro em uma escola pública, que como se sabe, é um caos lastimável. Claro está que existem as chamadas “escolas de referência”, mas essas não contam porque certamente são pouquíssimas e não absorvem o contingente enorme que bate a porta em desespero. Inclusive, nessas escolas, há o sorteio de vagas previamente destinadas a professores e funcionários. O problema dessa mãe é ter que matricular um dos filhos em uma escola pública inaceitável para uma pessoa de classe média, que tenha conseguido manter as crianças em uma escola particular até aqui.
Quem, por qualquer motivo tenha visitado uma escola pública, tem uma idéia do que eu estou falando. Imagine o olhar de alguém que já teve condições de pagar por escolas de nível A para seus filhos. Atendimento deficiente, falta de informações consistentes, tratamento sem qualidade … a antítese do que se prega como padrão de atendimento em qualquer organização séria. E aí, a pessoa que sempre teve alguma possibilidade de pagar … fica sem chão. E com razão. E fica a pergunta: por que os menos favorecidos financeiramente tem que passar por uma situação como essa? Quando é que as escolas públicas vão ser suficientemente boas para todos - sejam pessoas com poder aquisitivo alto, sejam pessoas sem condições de pagar? O fato é que hoje, sem dúvida, quem pode pagar tem uma educação diferenciada para melhor, enquanto não restam alternativas para os demais - que são a maioria esmagadora da população brasileira. Por que um empresário pode montar uma escola de alto nível, enquanto o Estado, com todo o dinheiro arrecadado, não consegue fazer o mesmo, dispondo de recursos estratosférios.
Vendo essa mãe, que vai ter que tomar essa decisão a curto prazo (as aulas daqui a pouco começam!), fiquei pensando sobre tudo isso. Qual dos dois filhos será o escolhido para o sacrifício? Quem deverá ser colocado nas mãos do Estado? Essas perguntas, feitas de maneira geral, cabem em muitos casos porque com um mercado que oscila por tendências cada vez mais peculiares, profissionais bem remunerados de toda uma vida, podem ser vitimados por mudanças inesperadas e ter seus rendimentos levados ao mínimo necessário para a sobrevivência. Ou até menos. E no processo, o enxugamento atinge a todos os centros de custo da casa. Uns optam por vender a casa de campo ou praia. Outros em vender o carro de luxo e comprar um mais modesto. Outros deixam de pagar o condominio ou até cortam o plano de saúde. Mas todos analisam a mensalidade da escola como algo que pode ser resolvido colocando o filho na escola pública … e aí a coisa se torna muito séria. Considero que a idéia do Senador Cristovam Buarque faz todo sentido nessa hora: obrigatoriedade de filhos de políticos estudarem nas escolas públicas! Pode ser utopia, mas é excelente idéia, porque essa classe estaria totalmente atenta ao problema, como nunca antes esteve. Ninguém gostaria de oferecer aos seus filhos um arremedo de educação!
Enfim, o sofrimento dessa e de tantas outras mães conscientes, mas sem condições financeiras de arcar com os custos da educação, poderia ser mitigado. Quanto custa estudar no Brasil? Depende. Se você estiver entre os 20% mais ricos da população, vai chegar ao fim de 20 anos de colégio e faculdade com uma formação de aproximadamente R$ 250 mil. Isso significa cerca de R$ 1 mil por mês. Nessa conta entram o dinheiro que você tira do próprio bolso para pagar as mensalidades e a contribuição que o governo faz (com investimento em universidades estatais e deduções de imposto). Agora, se você fizer parte dos outros 80%, sua educação receberá um investimento bem menor: o equivalente a R$ 116 por mês. Esse é o total gasto pelo país por aluno para manter as escolas públicas, onde não se passa muito tempo. Em média, essa parte da população completa só 5 anos de estudo formal, geralmente entre os 7 e os 11 anos de idade.
Qual a sugestão e solução para nossos problemas educacionais? As sugestões do Prof. Lauro de Oliveira Lima estão em mais de 30 livros escritos durante mais de 40 anos. Será que algum dia nossos dirigentes da área de educação vão se dar ao trabalho de ler?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Ser mãe é padecer no futuro

Diz um antigo ditado que “ser mãe é padecer no paraíso”, e no caso da escolha da educação de seus filhos, isso é uma verdade fundamental. Sobre os ombros das mães, quase que exclusivamente, repousa a responsabilidade de escolher a escola de seus filhos, quase sempre até as primeiras séries do ensino fundamental. E mesmo podendo pagar por isso, é difícil determinar o que será melhor para eles, principalmente quando se sabe que é aí que estão em curso as primeiras fases do desenvolvimento, que serão responsáveis por muito do que vai acontecer pelo resto da vida deles. Uma situação como essa é comparável àquela que estavam submetidos jovens de 16 anos, tempos atrás, quando eram convocados a decidir sem qualquer base consistente o que seriam pelo resto de suas vidas em termos profissionais. Em qualquer das duas circunstâncias, a probabilidade de erro é grande.
Sem um lastro de conhecimento que permita uma análise mais aprofundada, normalmente as mães (ou responsáveis) escolhem geralmente escolas que tem um nível de exigência muito grande. Mas para onde aponta esse nível de exigência? Invariavelmente em aquisição de enormes volumes de conteúdos, que se fazem da vida de qualquer pessoa um inferno, por outro lado não acrescentam nada em termos de desenvolvimento da inteligência – elemento fundamental hoje e daqui para frente. Normalmente a criança é “afogada” em uma enorme quantidade de exercícios, a grande maioria voltada para a “fixação” de elementos que não terão qualquer utilidade futura. Há uma sensação geral de que “aprender é sofrer” e isso é uma falácia montada ao longo do tempo, e aceita até os dias de hoje. Na nossa sociedade, trabalho ainda é dor! Ou seja, a grande maioria das pessoas trabalha em coisas que não gostaria, razão pela qual são tão valorizados os feriados, finais de semana, “happy hours” e outros subterfúgios para criar um intervalo entre os momentos de sofrimento e a vida como ela deveria ser, no entendimento de quem pensa assim. Escola ser local de sofrimento não é uma coisa difícil de incorporar para as pessoas que sofrem trabalhando. Tudo está dentro do mesmo balaio. Mas não precisa ser assim. Aliás, por tudo o que sabemos nos dias de hoje, não pode ser assim!
Lastimável é não haver um “Curso para ser Mãe” ou um “Curso para Escolher a Escola de seu Filho”. E é fundamental entender o processo como um todo para poder desenvolver as competências necessárias para fazer as escolhas adequadas. Ser mãe, hoje, é coisa para profissional, e dos bons. Dá para bater ponto e cumprir tabela, mas o preço a pagar é muito alto se não formos a fundo na questão fundamental: em que mundo estarão vivendo nossos filhos e o que eles vão precisar saber por lá. Meu pai, o professor Lauro de Oliveira Lima, acha que uma coisa que toda mãe deveria fazer seria ler Ficção Científica para entender o que poderá estar acontecendo num futuro ignorado mas previsível e até projetável em algumas circunstâncias. Isso porque todas as coisas que já conhecemos, e nas quais acreditamos piamente por reforço constante, não servirão para formar as gerações que estão se deparando com o desafio de viver num mundo completamente diferente em sua base.
Isso porque aquilo que foi por muito tempo “fixado” (palavra que sempre me lembra o ato de pregar alguma coisa na mente de alguém, usando ferramentas medievais) na mente das crianças e adolescentes, será tarefa de grandes bancos de dados relacionais, integrados em nuvem (cloud computing) e acessáveis de qualquer lugar, a qualquer tempo, por gadgets cada vez mais reduzidos e portáteis. Os dados estarão disponíveis.  A habilidade de acessá-los vai ser importante e a de utilizá-los, vital. Na cabeça, haverá lugar para a inteligência e criatividade. Esses dois elementos, associados ao desenvolvimento da moral do indivíduo, darão condições de sobrevivência num mundo que ainda não fazemos idéia de como será. Imagine seu filho hoje, com 5 anos e o coloque vinte anos a frente. Será um adolescente, caminhando para a fase adulta, e precisará estar apto a corresponder às demandas. O que você vai colocar na mochila dele? Todas as informações sobre quais são os afluentes do Rio Amazonas? A Tabela Periódica dos Elementos decorada? Os Lusíadas, na ponta da língua para ser declamado quando solicitarem?
Uma coisa interessante de se observar é que a mãe, em muitos casos, escolhe a maneira de educar considerando seu perfil pessoal bem como suas crenças e valores e não os do filho. Não funciona. Cada indivíduo tem suas peculiaridades, mas como explicar isso? Há ainda uma forte tendência de se considerar genética nesses casos, o que já se mostrou pouco eficaz. Na verdade o perfil de mãe precisa ser mais bem estudado por todos, e se você é mãe precisa definir qual é o seu e se deseja mudá-lo. Isso vai ajudar bastante na interação, pelo reconhecimento de suas características. Existem muitos perfis, e abaixo você pode verificar em qual você se encaixa:
- Exigente: Aquela que determina um padrão e não cede mesmo que esteja vendo que não e possível cumprir as metas.
-Indulgente: Aquela que cede a todas as vontades de seus filhos mesmo não concordando inteiramente com o que esta acontecendo.
-Resistente: Aquela que resiste bastante a ceder, tem princípios e mesmo a criança sendo prejudicada não muda de opinião.
-Rendida: Aquela que mesmo achando que não esta muito certa, faz o que os filhos querem mesmo sentindo-se prejudicada. E capaz de comprar objetos que terá dificuldades de pagar.
-Habilidosa: Aquela que faz  concessões,  mas  leva os filhos onde ela quer. Acha que deve  convencê-los em vez de dar  uma ordem direta.
-Guerreira: Aquela que luta de todas as formas para atender os desejos de seus filhos. Mesmo com sacrifícios da família.
-Amorosa: Aquela que acha que tudo ela resolve com carinho e que as coisas ficam bem se ela for afetiva com os filhos.
-Negligente: Aquela que diz e não cumpre, deixa os filhos esperando e não chega nunca. Não fica preocupada com que os filhos pensam sobre ela.
-Perfeita: Aquela que sabe todos os padrões e não quer que nada saia de seu domínio.
-Adolescente: Aquela que abandona, troca-se com os filhos, quer estar vestida e com a programação deles. O “não” nunca esta na hora correta.
-Protetora: Aquela que acha que seus filhos têm sempre razão, os outros são moleques e estão sempre causando danos aos seus.
-Agressiva: Aquela que briga e discute com seus filhos na frente dos outros às vezes humilhando-os, não espera para dar as punições com equilíbrio.
-Equilibrada: Aquela que julga as ações com calma e pune rigorosamente pelos fatos acontecidos.
-Religiosa: Aquela que quer transmitir a sua fé  a seus filhos, independente de suas escolhas.
-Mãe-Avó :Aquela  que age como uma avó. Da sempre razão aos filhos e volta os problemas para as outras crianças. Não aceita nenhum tipo de repressão aos filhos.

Estes são alguns tipos que lembrei. Em minha longa atividade de atendimento aos pais na Escola fui mapeando os tipos para poder ajudá-las a agir melhor com seus filhos. Tornar um filho autônomo e inteligente é  uma tarefa que tem que ser compartilhada entre a escola e a família. Veja se você se encaixa ou se combina com vários tipos.  Se você se vir com outro perfil mande me dizer. Faca seu comentário.


Beta

quinta-feira, 31 de março de 2011

Faculdade? Para que?


As mudanças estão aí, para quem quiser ver, e algumas são bem características desses tempos de transformações altamente dinâmicas. É o caso da mudança de pensamento que vem ocorrendo com relação a formação dos jovens. Nossa cultura sempre foi “bacharelesca”, onde a maioria das famílias, principalmente as de classe média, tinham como meta colocar seus filhos na universidade. Quem não o fizesse, não era bem visto na sociedade. A pressão era tão grande que um enorme contingente de jovens entrava na faculdade mesmo que depois se dedicasse a uma atividade totalmente diversa do curso que freqüentou.
No entanto, os jovens não estão mais querendo cursar uma faculdade, e tem seguido caminhos paralelos, guiados pelas indicações de mercado que são muito diferentes daquelas de 30 anos atrás. Mas, o que leva os jovens a tomar esse novo caminho?
Um dos motivos mais óbvios é que as grandes universidades não se reorganizam para atender as novas demandas por serem estruturas grandes e pesadas, que não tem velocidade para acompanhar as transformações em tempo real. A tomada de decisão interna para a criação de um novo curso a ser oferecido pode levar anos de discussões internas. Isso garante o continuísmo e paralisa a inovação. Como conseqüência, desestimula os potenciais alunos a cumprir um ritual absolutamente obsoleto em muitos casos.
Medicina, Direito e Engenharia são as carreiras ainda preferidas pelas famílias que estão pensando no futuro das carreiras de seus filhos baseadas em informações defasadas nos dias de hoje. Surgiram inúmeras outras carreiras e profissões que não existem para a Universidade. Novas áreas de trabalho vão aparecendo sem que haja respaldo universitário para elas, em decorrência dos fatores que vimos acima. Gastronomia e desenvolvimento de games não eram imaginados a dez anos atrás e no entanto são altamente atraentes para os jovens. A coisa está tão intensa e rápida que, de quando em vez, não sabemos mais o que é que o jovem está fazendo, porque o nome da profissão não existe ainda em nosso vocabulário.
Fiquei muito  impressionada com uma informação do Ministério do Trabalho Americano que diz que, antes de chegarem aos 40 anos, os estudantes de hoje terão passado por 10 a 14 tipos de trabalhos diferentes.  Muitas profissões ainda não foram nem criadas, o que torna mais difícil para os jovens tomarem  suas decisões. Como saber o que vai aparecer no mercado de trabalho?
Os pais vão ter que se habituar a discussões com seus filhos sobre posições que não passam pela formatura nas universidades.  Serão cursos tecnológicos, como redes de computadores, gestão ambiental ou logística e ainda empreendimentos próprios.
Escolas que orientam seus alunos olhando para o passado não são mais apenas omissas: são criminosas, porque condenam os jovens a um futuro sem esperança. Famílias que tomam por base para decisão sobre a formação de seus filhos usando os passos de seus pais, vão impor uma dificuldade adicional tremenda a eles, que terão que lutar em várias frentes ao mesmo tempo: resgatar o tempo perdido no aprendizado inócuo e fazer a curva de aprendizagem própria do momento em que vivem projetando o futuro em que viverão. É importantíssimo apresentar aos jovens as novas carreiras que se desenham para um futuro próximo e fazer com que estejam abertos para todas as possibilidades que irão surgir a sua frente. Eles tem o direito de receber essas informações e para que sejam atendidos, os educadores tem que estar bem informados sobre essas possibilidades. E tudo isso vai acontecer independente do sistema formal, porque a pressão de mercado é muito maior do que lentidão das entidades credenciadoras de competências.
Os criadores de inovações presentes no nosso dia a dia hoje, como os fundadores do Facebook, Twitter e Google, estimular os jovens a propor atividades diferenciadas. Ser criativo e inovador passou a ser fundamental. Ter velocidade de reação é determinante para o sucesso. Esse é um dos motivos porque acho, sinceramente, que todas as metodologias de ensino deveriam estar baseadas em Dinâmica de Grupo e no desenvolvimento da criatividade. No ambiente para o qual estamos indo em velocidades cada vez maiores, ser criativo é sinônimo de ser bem sucedido, em qualquer carreira que seja escolhida, principalmente naquelas que ainda vão surgir.