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domingo, 28 de junho de 2015

A "não-doença" e sua cura!

Em sã consciência, nenhum pai quer que o seu filho fique doente, é claro. Mas, venho identificando uma situação no mínimo estranha, que é a tentativa de alguns pais de encontrar, custe o que custar, uma doença moderna que possa estar acometendo seus filhos. Serve THDA, TDA ou qualquer outra dessas sopinhas de letras, tão ao gosto dos especialistas.
Gostaria de dizer alguma coisa a respeito, na tentativa de evitar essa SDBDNC (Síndrome de Busca de Doenças nas Crianças). A primeira coisa que identificamos nos pais que estão nessa busca, é que estabeleceram que o rendimento das crianças deve estar dentro de um padrão estabelecido por eles, e para isso comparam o de seus filhos com o de outras crianças que eles identificaram como "padrão"... E quem foi que disse que isso é uma maneira tecnicamente correta de estabelecer uma avaliação? Onde está escrito que uma pessoa pode "determinar o padrão", sem um conhecimento técnico ou científico sobre o assunto? Tudo não passa de "achismo", intuição ... ou seja lá o que for. O resultado é péssimo, no final das contas, visto que as causas de um determinado comportamento não desejável podem estar principalmente na má educação dada pela família - e aí o culpado assume a toga de juiz ou o jaleco de profissional de saúde para realizar o diagnóstico, com os resultados previsíveis.
A coisa se agrava quando, na escola, a criança está bem, agindo normalmente, dentro do esperado para seu nível mental, mas a família não suporta não fazer o papel de preocupada, querendo identificar alguma anomalia para poder encher a mesma de tratamentos e outras coisas. Isso não é bom para nenhuma das partes, e é preciso lembrar a análise errada da situação é tão ruim quanto não a analisar. Ou seja, é preciso estar atento, mas ter competência para avaliar as coisas corretamente.
As distorções comportamentais narradas pelos pais, ocorrem no ambiente doméstico, mas os mesmos querem que a escola "veja" esses "problemas", como se eles acontecessem durante o dia letivo - o que verdadeiramente não acontece! O ambiente é outro, as interações são diferentes, a estimulação e a motivação são completamente diferentes, enfim, é outro mundo. E em dois mundos diferentes, o que acontece em um não necessariamente acontece no outro, para o bem ou para o mal.
Entendo que o problema, via de regra, é da família, podendo muitas vezes uma doença já estar estabelecido cronicamente sem que ninguém consiga vê-la. Levam as crianças aos terapeutas que não se comunicam com a escola, se apropriam das informações dadas pela família (sejam elas quais forem). O que era um problema, vira uma confusão, e o prejuízo maior é sempre da criança.
Ora, isso tudo soa como falta de responsabilidade, porque se uma criança estiver, realmente, doente, precisa de diagnóstico e terapias, sim, mas precisa que isso seja compartilhado com a escola, visto que ali é o local de maior vivência deles. Mas como a Escola, em nossa sociedade, é altamente desmoralizada, não é dada a ela o crédito para que sejam levadas em consideração suas análises e avaliações sobre o comportamento infantil. Assim, a seriedade de todo um trabalho de anos não é reconhecida, a não ser que a escola "aceite a doença" que os terapeutas e pais determinaram que existe!
Refletindo sobre tudo isso, com a experiência de mais de 40 anos e toda a vivência que pesa sobre os meus ombros, só consigo imaginar, que de uma maneira transversal, as pessoas achem melhor identificar as "doenças" nas crianças, para que o fracasso só possa ser atribuído a elas e não aos pais. Assim, a culpa fica no "defeito de fabricação" com que a criança chegou ao mundo ... o que torna tudo mais fácil para os que têm o poder de disseminar a ideia.
No final, fica aquele discurso de que "nós somos ótimos, vencedores, campeões, mas infelizmente nosso filho tem isso, aquilo e aquilo outro, e não rende na escola...". Muitas crianças vão sendo "adoecidas" assim, e mesmo não precisando de tratamento, são levadas a terapeutas que passam longos anos procurando uma cura para uma não-doença!
A minha pergunta é se todos vão ficar calados, sem defender as crianças!? Ora, chega disso. O percentual de crianças doentes é mínimo se comparado ao de adultos doentes, e com essas doenças os adultos vão criando uma geração de crianças "doentes" de falta de atenção. Sim, porque criança sem atenção fica doente, criança perseguida fica doente, criança sem carinho fica doente, criança sem limites fica doente, e por aí vai. A grande maioria das "doenças infantis" são criadas pelos adultos que decidiram não educar às crianças. Ter filho é uma construção diária que gera um ser integral. Não existe uma fórmula pronta, mas o que se sabe é que eles são o resultado final da combinatória da família onde estão inseridos.
É difícil educar ??? É! Mas é possível. Todo dia, seu filho é outro filho, pois o desenvolvimento cognitivo e emocional é uma construção diária. A afetividade também obedece ao mesmo ritmo. Você quer ser um "bom pai"? Não se iluda... dá trabalho mesmo. Aprenda a conversar com ele, busque leituras a respeito, bem como reuniões e cursos disponíveis hoje em dia. Nunca se achem "experts" no assunto, porque isso não existe. Os comportamentos dos pais são muito diversificados e os ajustes terão que ser também amplos e atender uma gama enorme de maneiras de agir.
Mas, principalmente, identifiquem o que vocês querem para seus filhos, porque se o que vocês querem são só notas boas na caderneta, isso não vai resolver o problema deles no futuro. Aprender a ser pai é tarefa difícil, mas vale a pena. Vou continuar a falar sobre isso em um próximo artigo.

***

sexta-feira, 23 de março de 2012

Seguindo as Regras


O desespero de ter que tomar uma decisão sem saber como
   Fui cortar o cabelo. Peguei uma revista e fiquei aguardando enquanto o cabeleireiro fazia seu trabalho. De repente, uma entrada retumbante no salão: pai, mãe e duas crianças. A mais velha tinha uns 4 anos e a mais nova não mais do que dois anos. A mais velha gritava, chorava, esperneava e dizia o tempo todo que não queria cortar o cabelo. Enquanto isso, os pais se desgastavam dando explicações lógicas sobre as enormes vantagens de cortar o cabelo. Entre os vários argumentos um deles era de que não doía! E para provar isso ela, a mãe, iria cortar também, etc, etc. Mas nada demovia a criança de continuar seu escândalo. Num gesto desesperado, o pai prometeu que, quando saíssem do salão, iriam a uma loja de brinquedos e ela poderia comprar o que desejasse. E nada...
   Já perdendo a paciência, o pai entra em campo novamente com a afirmação de que, se ela não cortar o cabelo, vai para o castigo quando chegar em casa. E ... nada. Segue o escândalo, agora dois tons acima!
   Fiquei observando que todas as pessoas presentes no salão, clientes da casa, começam a ficar nervosas vendo aquela cena, mas os profissionais se mantêm distantes do conflito. Tudo descambando para um estresse total, num local e numa situação onde isso não seria realmente necessário ou conveniente.
   Tendo acabado meu corte de cabelo, aproximei-me da família e me apresentei. Perguntei se poderia auxiliá-los no problema e o pai imediatamente aceitou a ajuda. A mãe ainda ficou olhando com dúvidas quanto ao “milagre” que eu queria fazer, quando ela já tinha tentado de tudo.
   Expliquei a eles que a questão ali era de decisão. A criança estava sofrendo muito por não ter elementos para tomar uma decisão e eles, por serem um casal jovem, estavam inseguros frente a solução que iriam dar para aquilo. Ficavam explicando, explicando, e não decidiam realmente nada. Repassavam a responsabilidade para quem estava menos preparada para decidir, ou seja, a própria criança.
   Sugeri então que dessem uma ordem firme, colocando a criança no colo de um dos pais e sinalizando claramente a ação. O pai se colocou como agente ativo e, não dando nenhuma opção, deu ordem para iniciar o corte do cabelo. A criança rapidamente parou de chorar e o corte de cabelo pode ser feito, passando a ser alvo da curiosidade da própria criança.
   Conversei com a mãe sobre as Regras, explicando que até os 7/8 anos de idade, as ordens tem que vir de fora (Heteronomia) e que a criança fica insegura se tiver que decidir. Falei também que não prometessem brinquedos ou coisas semelhantes como premiação por algo que a criança teria que fazer por ser necessário. Presente devem ser oferecidos nas datas específicas onde fazem sentido, como aniversários, Natal, Páscoa, etc. Enfim, conversamos objetivamente sobre a questão.
   Caso resolvido, família feliz e agora entendendo como as crianças ficam felizes quando as ordens são dadas com calma e determinação. O mais interessante é que os profissionais do salão disseram que situações como essa são uma constante porque os pais não dão ordens e as crianças fazem sempre aquele escândalo para cortar o cabelo.
   Como orientação final, seja sempre firme quando a situação exigir, para proporcionar segurança as crianças. Se elas sentirem que seus pais ou os adultos que as acompanham estão seguros, terão a maior tranquilidade em seguir as orientações decididas por eles.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Quem cuida de nossos filhos?


Quem pode cuidar mais e melhor?

                 A sociedade está preparada para as crianças? Temos em nossas casas um lugar que seja, realmente, destinado a elas? Não, é a resposta mais frequente. Normalmente, as crianças ficam relegadas a seus pequenos quartos, onde quase nunca existe um lugar para brincar.
                Claro está que isso não é feito por maldade, mas sim por desconhecimento das necessidades infantis, daquilo que efetivamente pode fazer a diferença no seu desenvolvimento. Se os pais não sabem o nível mental de seus filhos, como vão saber como organizar o seu quarto? Fica difícil também saber como reorganizar o ambiente para acompanhar o desenvolvimento da criança e do adolescente. O que mais se vê é o pai olhando para seu filho como se fosse um “adulto em miniatura”, quando nada é mais equivocado.
                Uma informação importante para os pais é que eles deveriam mudar, pelo menos cinco vezes, a configuração do quarto durante o crescimento da criança, porque o que existe num quarto de um bebê (Nível Sensório-Motor) não tem nada que interesse uma criança que esteja no Nível Intuitivo, com 4/5/6 anos. São crianças inteiramente diferentes e com interesses totalmente diversos. Os brinquedos mudam, as camas mudam e até os livros mudam. Logo, para educar uma criança é fundamental saber o que essa criança pensa. Novos questionamentos deveriam surgir, como por exemplo saber se ela precisa de uma mesa, que jogos devem ser comprados, quem deve acompanhar esse processo...
                O período diário onde a criança passa a maior parte do tempo é voltado para a Escola, onde ela encontra o seu melhor brinquedo, segundo Piaget: outras crianças. Mas e o período em que ela não está na escola? Já temos discutido o papel das cuidadoras (babás) aqui no blog, principalmente por conta da falta de formação das mesmas, o que acarreta problemas. A falta de conhecimento é mais grave no trato com as crianças pequenas. Os pais, nos dias de hoje, estão envolvidos em alta atividade produtiva, num mundo competitivo e dinâmico, instável e evolutivo, o que quase elimina a possibilidade de um foco maior nessa delicada situação. Entendo que hoje, por força do que foi dito acima, volta a cena com toda a força a figura dos avós, que durante muito tempo foram colocados de lado por serem considerados ultrapassados. A mudança do conceito se dá por vários motivos, sendo o principal deles o fato de que as pessoas estão sendo, cada vez mais cedo, avós. Os filhos tem tido filhos cada vez mais cedo, e isso criou uma nova condição, que precisa ser bem aproveitada pelas famílias. É preciso que os filhos desses pais mais idosos avaliem bem o quanto foram adequadamente educados, a ponto de ocuparem postos importantes o suficiente para não lhes dar tempo de cuidar de seus próprios filhos. E sendo assim, qual o impedimento em se repetir o modelo anterior que deu tão certo? Qual o problema em um homem saudável – ou mulher – na faixa dos 60 anos, bem informado, bem instruído, com tempo disponível, sair em busca da melhor escola para seu neto? Certamente, pela abrangência dos meios de comunicação de hoje, seria muito mais capacitado a se atualizar, encontrar novos modelos de educação, investigar a fundo a escola de seu neto, e oferecer resultados superiores em termos qualidade da escolha. Frente aos desafios, é uma coisa quase que natural que o homem busque encontrar os meios de fazer frente aos problemas que lhe são impingidos pela vida. Certamente os avós teriam uma resposta fantástica a dar, se fossem convidados a isso. E com tempo para trabalhar no assunto.
                Temos que acreditar que cuidar de crianças exige competência, não importa a quantidade de tempo envolvido. Não podemos descuidar disso. Crianças absorvem com muita rapidez os ensinamentos que lhe são dados e não é só o bom senso que atende a essa situação. Hoje, sabemos muito do psiquismo humano e sobre a maneira como as crianças reagem enquanto se desenvolvem. Por exemplo, sabemos por exemplo que os preconceitos começam a se formar por volta dos 4/5 anos e é vital que exploremos situações que não permitam a criação dos mesmos. E como fazer isso? Certamente você não quer um filho cheio de preconceitos, mas como não passar os seus para ele? Que histórias contar para elas, por exemplo. Já sabemos que existem histórias para todos os níveis de desenvolvimento mental, e não podemos cair no erro de contar uma história esperando que haja algum resultado, quando a mesma não é adequada ao nível mental do ouvinte. Crianças antes dos 6/7/8 anos não entendem histórias que não tenham uma sequência muito clara. Nos jogos a coisa funciona do mesmo jeito. Muitas vezes a criança, ao não entender uma regra, parece ter um comportamento teimoso, mas o que houve foi uma total falta de entendimento da mesma. Saber quando e como uma ação deu resultado em termos de aprendizado é fundamental para uma educação de qualidade;
                Conhecer a criança, saber seu momento e agir de acordo com ele é a essência do processo educacional. E hoje, precisamos mais do que nunca de pessoas que se disponham a entender isso para que nossas crianças possam ser viáveis no futuro.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A Leitura do Simbólico



Simbólico: (2a6m ate 4/5 anos) – Esta  é a idade do simbolismo e do faz de conta. No inicio deste período a criança não entende o faz de conta, acreditando mesmo no simbolismo, e por isso tem medo de fantasias (palhaços, pessoas com roupas de animais – mesmo que vestidos na frente dela). Conte  todas as historias mágicas e cheias de fenômenos. A magia dá um prazer muito grande a eles. Os animais falam, as pessoas voam, os carros tem sentimentos. Nada é impossível. Seja criativo quando a historia do livro não for. Muitas vezes os autores não sabendo a idade mental das crianças contam fatos achando que estão atingindo as mesmas. Neste período, as crianças não entendem as pessoas fantasiadas, e quando ela quer ser um personagem, apenas a força do pensamento importa. Se ela tem medo do lobo, não adianta você dizer que e o titio é que vestiu a roupa do lobo, porque ela vai continuar achando que aquele é o lobo. Agora ele já segue uma seqüência, mas não fica esperando coisas complexas acontecerem. O final não precisa ter lógica e podem ocorrer fatos que, do ponto de vista lógico, seriam impossíveis. Ele não entende ainda ambigüidade, nem ironia. Só fatos concretos.
Livros Interessantes:
1) O Lobo e os sete cabritinhos
2) Surpresa na Sombra
3) As flores da primavera
4) Pedro esta encolhendo
5) Os músicos de Bremen

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Quando os bebês lêem




Criar o habito de leitura deve ser papel da Escola e da família. A preocupação deve ser constante. E a escolha dos livros e revistas permanente. Crie o habito de presentear seus filhos com livros. Aprenda a escolher de forma a agradá-lo. Você deve manter livros sempre à mão das crianças. Em cada etapa do desenvolvimento os livros têm uma característica especifica, e por isso conhecer o nível de desenvolvimento é tão importante para saber quais os interesses das crianças e adolescentes. Não tenha preconceito para escolher os livros que vai utilizar para isso. Não é necessário ser grande, muito colorido ou com figuras muito bonitas. Vamos dar indicação do nível das crianças para que você saiba quais são os melhores a serem escolhidos e não deixe de levar as crianças e jovens as feiras de livros e livrarias, lembrando sempre que é um investimento e não um gasto. Compare sempre com brinquedos às vezes muito mais caros e que não tem a durabilidade de um livro.
Não fique preocupado com a indicação feita no livro pela idade. Não é porque tem pouco texto que e compreensível. O fato de ser tradicionalmente colocado como infantil não o torna mais simples de ser compreendido.
Peguei na mídia algumas indicações de livros que não estão corretas de acordo com o nível mental das crianças, baseado nas teorias de Piaget, e quero explicar os erros por eles cometidos na indicação segundo nosso ponto de vista. Os livros têm nível e precisam ser adequados a idade mental das crianças. Às vezes os escritores não sabem para que nível especificamente estão escrevendo, mas os educadores devem classificar, para que haja o interesse das crianças. Os temas, a seqüência lógica e os enredos atendem sempre a um determinado nível. 
Sensório-motor: (do nascimento ate cerca de 2 a 6meses)- A crianças não  entendem nada de  seqüência nem enredo. Pense então em livros com gravuras simples e você vai contar a elas a historia daquela figura sem a preocupação do que vem depois. Use os verbos e substantivos, pois a criança vai querer realmente fazer as ações e para isso precisa formar vocabulário.  Neste período, a imitação é direta, logo não conte historia estaticamente. Ande, fale e mexa as mãos, braços. Quanto mais expressões mais atenção terá das crianças nesta fase. A historia estará bem ligada ao afeto de quem a esta contando e o livro serve apenas como apoio. Todos os sentidos devem ser explorados (visão, audição, cinestesico, pressão, tato, olfato, sensação térmica etc... – temos 22 sentidos).
Livros interessantes:
1.    Quem faz o que?
2.    O que sei fazer
3.    Elmer e o tempo
4.    Toque e Sinta Animais
5.    Leo, o leão
São sugestões que vão despertar interesse nas crianças do período  Sensório- motor, não deixem de produzir sons, e muitos movimentos.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O nosso tempo e os nossos filhos


    
Educar filhos nunca foi uma coisa fácil, em toda a história da humanidade. Mas educar, é educar mesmo, e não fazer de conta que...
    E nos dias de hoje, a experiência tem mostrado que, na grande maioria das vezes, vamos reduzindo o tempo para essa atividade tão importante, que poderá gerar frutos maravilhosos ou terrivelmente amargos. Senão vejamos.
      Quando as crianças estão no Período Sensório Motor (de 1 a 2 anos e seis meses de idade), os pais se dedicam, tem tempo e querem saber tudo o que seus filhos fazem. O gasto com esses cuidados é quase ilimitado. Vi no Facebook, recentemente, comentários sobre babás ganhando R$ 5.000,00 (cinco mil reais), o que significa que os pais estão pagando isso para uma pessoa que vai cuidar de seus filhos, nessa fase em que são bebês. Mas o tempo passa.
       E na medida em que o tempo passa, os pais vão ficando, curiosamente, com menos tempo para essa importante atividade. Vai escolher uma escola que não cobre muito sua presença, que tenha um preço mais em conta, enfim, que sirva apenas para a permanência da criança durante um período do dia, porque acreditam piamente que ela não tem nada aprender dos dois anos e meio até aproximadamente os cinco anos (do Período Sensório Motor até o início do Período Intuitivo).
    Em seguida, os pais ficam preocupados com a Alfabetização e por conta disso a escola ganha novamente destaque como elemento importante no processo. É um modelo seguido frequentemente e preocupa porque os pais, por não saberem exatamente o que é desenvolvimento mental, deixam de trabalhar a questão durante o período mais importante, levando-a a não desenvolver seus potenciais de maneira plena. Por exemplo, o Sensório Motor e o Simbólico são essenciais no processo, porque o primeiro vai ser reciclado nas operações concretas, e o segundo, de 2 anos até 5 anos,  vai ser muito importante para as operações abstratas. Todo o desenvolvimento vai estar calcado no Sensório Motor (ação) e todos os outros períodos vão precisar desta base para continuar sua trajetória. E os pais, comumente, decidem pela escola em que a criança vai estudar calcados em parâmetros totalmente aleatórios, o que leva a muitos erros e enganos que irão cobrar seu preço mais a frente. Pais e Mães deveriam trabalhar em conjunto nessa hora, para poderem analisar todas as variáveis – ou pelo menos um número grande delas. Fica sob a responsabilidade da mãe essa decisão, o que é no mínimo uma crueldade para com um dos pares, que carregará para toda a vida a glória ou  a culpa pela escolha. E na hora da escolha, não vai ser uma “cozinha branquinha” que garantirá como será o desenvolvimento de seu filho e, portanto, suas chances no futuro.
    Seguem o caminho e ai entram  no ensino fundamental. Não sabendo o que é ou não importante, os pais procuram saber agora quantos conteúdos seu filho esta “aprendendo” a cada bimestre. Tudo é medido pelo bimestre (quando ocorrem as provas). Não querem mais saber se a criança gosta da escola, ou se esta adequada a seu filho. O que mais querem é uma escola considerada “forte”, aquela que diz que a criança com 7 anos, por exemplo, vai aprender a divisão, operação abstrata que só será entendida realmente aos 10/11 anos, se o desenvolvimento tiver ocorrido com sucesso.
 Vamos em frente e, na 2ª. fase do fundamental, aí é o pai quem escolhe, geralmente baseado no julgamento que ele faz da escola com relação aos exames futuros (Vestibular ou ENEM). Mas ele não sabe que essas escolas estão longe de ser modelos internacionais. Nosso ensino em geral, está abaixo da critica. Mesmo as consideradas escolas de elite. Por isso não temos a formação de cientistas. Onde estão nossos prêmios Nobel? Mas os pais estão perguntando é se ele vai passar no vestibular! Será que todos têm que ir até a Universidade? E a Universidade é realmente Universal? E os que não conseguem, vão ficar fora do contexto e da sociedade?
Mas finalmente, aos trancos e barrancos, chegam ao Ensino Médio. Os da classe média e alta, pois os das classes  populares já abandonaram a escola por absoluta falta de utilidade para eles do que aprendem nesses cursos, que não levam a nada.
Os que ficam começam a andar por sua própria conta, porque os pais não têm mais nenhum tempo para eles, preferindo fazer apenas a verificação dos boletins, como se isso fosse uma base de diagnóstico confiável. Não tem a mínima idéia sobre o comportamento de seus filhos em sala de aula, se estão dormindo a maior parte do tempo, ou conversando ou mesmo se ausentando das aulas. Não sabem que desafiam os professores, que passam boa parte do tempo combinando a balada da noite ou o churrasco de final de semana. E alguns, nem sequer os boletins tem tempo de ver, para ter uma idéia das notas, mesmo que isso não signifique grande coisa. No final do ano, se o filho não passou para a série seguinte, recorrem a uma escola “mais fácil”, onde finalmente vão ver o filho passar – de um jeito ou de outro.
O que a gente observa, com muita freqüência, são adolescentes abandonados, já que as escolas deixam de promover reuniões de pais para que os professores possam trocar idéias com a família. Os adolescentes vão percebendo que ninguém cobra nada deles. E quando cobra, partem para  o vale tudo da “cola” ou da cópia de material de outros. Normalmente, no cotidiano, os adolescentes não estão levando sequer aquele material escolar básico (livros e cadernos) para a escola, já que são totalmente inúteis e desnecessários para eles. Os livros didáticos solicitados pela escola no inicio do ano chegam inteiramente sem uso ao final do mesmo, e quase nenhum pai vê, porque não está prestando atenção a isso ou praticamente nada do que está acontecendo. Ao que parece, o fato de terem “cumprido a sua obrigação de pais”, comprando o material determinado pela escola, liquida com todas as demais obrigações. Se o professor conseguir, o aluno usa... e não há nada menos verdadeiro do que isso.
O professor, com 30 ou 40 alunos dentro de sala de aula, não tem idéia do que está acontecendo ali, porque está escrevendo no quadro (verde, negro, digital) enquanto os alunos estão ali, naquela festa, entregues a própria sorte.
Pais existem, em quantidade, que não sabem que seus filhos bebem, fumam, usam drogas ou roubam. Por incrível que pareça, não tem idéia nem sobre a opção sexual de seus filhos. São pais que acham que, a essa altura da vida, já fizeram tudo que podiam ou deveriam fazer para seus filhos, e é aí que mora o problema maior: nossos filhos são para toda a vida! E precisam ser atendidos em todas as fases.
E tudo isso que foi dito acima não é um relato baseado em fatos que ocorrem na escola pública. Não, são acontecimentos rotineiros de escolas particulares, que se dizem de excelência, e que prestam serviço a pais que se dizem responsáveis e atentos aos seus filhos.
Não deixem a coisa andar do jeito largado, porque haverá inevitavelmente o dia em que a pergunta vai surgir: onde foi que eu errei???

Beta

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

CRIANCAS PREOCUPADAS



Lendo matéria da revista ÉPOCA, mais uma preocupação pedagógica me vem à cabeça. Crianças com uma nova síndrome - Transtorno Ansioso da Infância e Adolescência! E os números são alarmantes, porque é grande o percentual de atingidos entre 5 e 16 anos -de 9% a 15% dessa faixa etária.
O que esta acontecendo na nossa sociedade? Como estão os diagnósticos?
Apresentam-se então 3 posições diferentes a serem consideradas:

1. Crianças terceirizadas (abandono)
2. Crianças super-protegidas
3.  DNA.

 Quem tem razão, não sabemos, mas podemos analisar perfeitamente o que esta ocorrendo.

1º.)  Os pais realmente não estão preparados para a paternidade e a sociedade vem exigindo muito deles quanto a sobrevivência da família em um nível razoável. Ter que adquirir bens de consumo tira os pais totalmente do foco de educar sua prole. Família muito pequena é outro fator a ser considerado. As crianças não têm ambiente familiar e ficam em contato permanente com os adultos, o que desgasta totalmente a relação entre eles.
2º.) Ao sentirem que estão abandonando as crianças, os pais fazem uma super-proteção para garantir o crescimento saudável de seus filhos, paradoxalmente impedindo que eles cresçam e se desenvolvam da melhor maneira. Fazem tudo para evitar que eles se exponham e procuram evitar  que  tenham perigos à sua volta. Querem manter seus filhos como bebês até a fase adulta, achando que assim evitam o surgimento de conflitos de geração.
3º.) A condição de a síndrome já estar presente no DNA é a mais fácil de ser admitida, até porque não há nada a ser feito nesse caso. É aquela história do “Filho de peixe, peixinho é”, o que em psicologia é pouco ou quase nada determinado. Vejam os filhos adotivos que ficam com as mesmas características da família, sem que haja qualquer interferência do DNA. Sabemos que a personalidade é a resultante de uma interação do meio com o individuo (Piaget).
Que existe o problema, não há dúvida,  mas em muitos casos eles podem estar mal diagnosticados, o que torna  difícil o tratamento.
Pais ansiosos geram filhos ansiosos pelo ambiente que criam em seus lares. Eles não tem paciência de dar o tempo necessário para a criança se vestir, comer, brincar, ler, fazer os deveres de casa. Eles querem um adulto em miniatura e quando isso não ocorre, ficam decepcionados e passam para a criança esta frustração. A criança acaba chegando a conclusão de que não consegue fazer as coisas como é determinado por seus pais. Percebe que eles não gostam da maneira como elas fazem as coisas. E pior ainda, não conseguem fazer de outra forma. Isso desagua naturalmente na frustração e na ansiedade.
A falta de desenvolvimento para o exercício de algumas atividades é tratado como ansiedade de forma equivocada Por exemplo, até os 10/11/12 anos, a criança não tem a noção de tempo totalmente desenvolvida, e isso provoca em viagens aquela série de perguntas como: “Quanto tempo falta para chegar?”, “Demora muito ainda para chegar?”. Para ela não tem sentido você dizer que falta uma ou duas horas. Para os adolescentes com esta noção de temporalidade bastaria essa informação, mas para as crianças pequenas, mesmo que saibam ver as horas no relógio, não o entendimento do “tempo” propriamente dito. Outra noção tardia é a de velocidade, que envolve tempo e espaço. Tudo, para ela, demora muito a chegar. Por isso é tão importante que os pais entendam que não adianta dar um castigo de a criança ficar algum tempo sem determinada fonte de satisfação. Eles, logo após o castigo, perguntam se já passou o tempo.
As atividades nas escolas devem durar de 5 a 10 minutos cada uma e irem mudando para que a criança acompanhe com interesse. Após 10/11 anos já podemos ter atividades de ate  20 minutos. Mais do que esse tempo, as crianças perdem o interesse e se desorganizam, chegando até a dormir em aulas muito longas. Os professores que não conhecem as teorias de Piaget, correm o risco de não despertarem o interesse das crianças e adolescentes e julgarem que os jovens tem síndromes de atenção - TDHA ou TDA.
As crianças que ficam muito preocupadas com os adultos são crianças que não tem companheiros de brinquedo e vivem entre os adultos sentindo, ouvindo e participando de seus problemas. Muitas vezes as mães fazem de suas crianças seus companheiros, não deixando as crianças conviverem nas sociedades infantis como deveriam. As crianças precisam de outras crianças para brincar. Os adultos são os piores companheiros para as crianças. Devem estar atentos e cuidando, nunca tentando ser criança.  As atividades dos adultos devem ser as de ouvir as crianças/adolescentes, contar historias e promover brincadeiras sempre com outras crianças. Promover encontros com amigos em suas casas é uma ótima prática para permitir que seus filhos brinquem muito. É importante derrubar o mito de que existe “criança exemplar”, porque isso é um modelo artificial criado por elas para serem aprovadas pelos adultos com quem convivem.
 A ansiedade, como qualquer fator emocional, interfere no raciocínio. Essa é uma das razões porque manter o equilíbrio emocional das crianças é  tão importante.  Para que isso aconteça, é preciso que os pais sejam equilibrados, Eventualmente são necessárias terapias para os pais, porque estes estando bem podem agir de maneira concreta para que seus filhos mantenham-se bem, ou mesmo revertendo um desequilíbrio instalado na família. A família com o passar do tempo,tornou-se um núcleo muito pequeno e, às vezes, doentio
Por outro lado as escolas não se desenvolverem e não mudaram seus métodos atuando no século XXI com metodologias aplicadas do século XV  ao XIX . A expectativa dos pais quanto às escolas é a mesma de seus avós. No entanto, os filhos de hoje são globais, internéticos, digitais e multifuncionaisvitrola e um disco de cera (você pai do século XXI sabe do que estou falando?).  A criança pega e tenta colocar em funcionamento como se olhasse um inseto esquisito... e no entanto essa tecnologia foi inventada tão somente a 30 anos.... Como é que a escola, sem mudar, vai atender as angustias e a solidão de crianças filhas únicas, pais muito ocupados, tecnologias de ponta, conceitos virtuais?
O esforço que deveria estar sendo feito, exaustivamente, seria para que os métodos mudassem e se tornassem viáveis para educar estas novas gerações. E temos que saber que é um processo que precisa ser rápido, pois as crianças nascem, como todos da espécie, na idade da pedra. E tem que atingir  o nível de sua sociedade, cada vez mais desenvolvida e acelerada.
Os medos que aparecem nas crianças podem ser analisados à luz das teorias piagetianas. Até os 2/3 anos, as crianças tem medo de perder o afeto, não só de seus pais mas também de seus cuidadores. A saída de uma babá que estava com ele há muito tempo, por exemplo, pode causar um desastre quando os pais não foram presentes e tenham repassado todos os cuidados a esta pessoa. Depois dos  3 anos, já com o pensamento simbólico em ação, surgem os medos imaginários (lobo embaixo da cama, escuridão) mas surgem também os “amigos imaginários” e o jogo simbólico, que pode resolver muitos dos medos que aparecem. Os pais deveriam dar  importância a estes medos, que são reais, ao invés de dizer “isso não é nada” ou “isso não existe”. Preste atenção às  suas crianças e  estes medos vão aos poucos desaparecendo, bem como as angústias decorrentes.Quando necessário, acompanhe a criança no escuro e acenda as luzes para que ela se sinta segura. Não traduza o medo dela pelo seu. Você  pode não ter medo, mas o dela é real (fase do desenvolvimento). Depois dos 6/7/8 anos, a criança está entrando no pensamento concreto e já entende os medos do imaginário, surgindo então os medos reais. Se machucar, ir mal na escola ou ser vítima de desastres naturais. São preocupações dos adultos que são sugeridas às crianças e elas, como não tem controle sobre as situações, ficam com medo. Não podemos esquecer que estes medos vem da pressão adulta sobre as crianças. O que significa ir mal  na escola? Para os pais significa tirar notas ruins que, na maioria das vezes, não significam aprendizagem. Será que a escola está atendendo as expectativas das crianças? Muitas vezes não está!
Não podemos pensar que a vida das crianças é fácil. Crescer é muito difícil e requer um grande esforço. Cabe aos pais e professores promoverem a alavanca para o desenvolvimento geral. Criança precisa de ajuda e principalmente de afeto. Caso contrário ...

Beta

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A Moral de Baudelaire

Oi pessoal,

Baudelaire, lá pelos anos 1860, escreveu uma poesia (“Os olhos dos pobres”) que falava de uma noite em que estava sentado com sua mulher num luxuoso restaurante parisiense. Só que a presença repentina de um homem pobre, barbado e maltrapilho, que estava de mãos dadas com seus dois filhinhos, todos os três muito admirados com aquela opulência, mudou para sempre a relação do casal.
Enquanto o poeta se sentia enternecido com a cena e até mesmo envergonhado com tantas garrafas e copos para tão pouca sede, sua acompanhante lhe suplicava que expulsassem dali aquela “gente insuportável”. Pobre Baudelaire, muito provavelmente sua decepção lhe castigou noites e noites.
Pois bem, se passaram muitos anos e ainda hoje se vê esse tipo de reação diametralmente oposta entre amigos, parentes, casais. A sociedade brasileira (e de todo o mundo) se divide diante de fatos como esse e difere totalmente no modo de interpretá-los.  
Aqui na Venezuela, não foram poucos os casais que se separaram ao encontrar-se frente a situações consideradas impossíveis há pouco tempo atrás. Também pudera. Socialistas eram pessoas exóticas ou vilãs de filmes, documentários e, no máximo, protagonistas permitidos aos sonhos de estudantes, jovens, hippies ou que viviam longe, em lugares inalcançáveis!
Hoje esse ser exótico, está invadindo o mundo de uma forma muito acelerada. Nossa sopa às vezes está cheia deles. Certamente, muitos não nos damos conta das bruscas mudanças que estão acontecendo no mundo neste exato momento. O Baudelaire... bem, o Baudelaire com certeza está aplaudindo tudo isso, lá na tumba dele.

Odorico Bemvenido

 Os olhos dos pobres
De Le Spleen de Paris (Os Pequenos Poemas em Prosa)

Quer saber por que a odeio hoje? Sem dúvida lhe será mais fácil compreendê-lo do que a mim explicá-lo; pois acho que você é o mais belo exemplo da impermeabilidade feminina que se possa encontrar.

Tínhamos passado juntos um longo dia, que a mim me pareceu curto. Tínhamos nos prometido que todos os nossos pensamentos seriam comuns, que nossas almas, daqui por diante, seriam uma só; sonho que nada tem de original, no fim das contas, salvo o fato de que, se os homens o sonharam, nenhum o realizou.

De noite, um pouco cansada, você quis se sentar num café novo na esquina de um bulevar novo, todo sujo ainda de entulho e já mostrando gloriosamente seus esplendores inacabados. O café resplandecia. O próprio gás disseminava ali todo o ardor de uma estréia e iluminava com todas as suas forças as paredes ofuscantes de brancura, as superfícies faiscantes dos espelhos, os ouros das madeiras e cornijas, os pajens de caras rechonchudas puxados por coleiras de cães, as damas rindo para o falcão em suas mãos, as ninfas e deusas portando frutos na cabeça, os patês e a caça, as Hebes e os Ganimedes estendendo a pequena ânfora de bavarezas, o obelisco bicolor dos sorvetes matizados; toda a história e toda a mitologia a serviço da comilança.

Plantado diante de nós, na calçada, um bravo homem dos seus quarenta anos, de rosto cansado, barba grisalha, trazia pela mão um menino e no outro braço um pequeno ser ainda muito frágil para andar. Ele desempenhava o ofício de empregada e levava as crianças para tomarem o ar da tarde. Todos em farrapos. Estes três rostos eram extraordinariamente sérios e os seis olhos contemplavam fixamente o novo café com idêntica admiração, mas diversamente nuançada pela idade.

Os olhos do pai diziam: "Como é bonito! Como é bonito! Parece que todo o ouro do pobre mundo veio parar nessas paredes." Os olhos do menino: "Como é bonito, como é bonito, mas é uma casa onde só entra gente que não é como nós." Quanto aos olhos do menor, estavam fascinados demais para exprimir outra coisa que não uma alegria estúpida e profunda.
Dizem os cancionistas que o prazer torna a alma boa e amolece o coração. Não somente essa família de olhos me enternecia, mas ainda me sentia um tanto envergonhado de nossas garrafas e copos, maiores que nossa sede. Voltei os olhos para os seus, querido amor, para ler neles meu pensamento; mergulhava em seus olhos tão belos e tão estranhamente doces, nos seus olhos verdes habitados pelo Capricho e inspirados pela Lua, quando você me disse: "Essa gente é insuportável, com seus olhos abertos como portas de cocheira! Não poderia pedir ao maître para os tirar daqui?"

Como é difícil nos entendermos, querido anjo, e o quanto o pensamento é incomunicável, mesmo entre pessoas que se amam!

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Amigos e amigas,
Depois de ler este lindo poema em prosa podemos dizer que a grande dificuldade da humanidade é a comunicação. Ninguém, por mais intimidade que tenha com o outro, consegue uma comunicação perfeita. Vejamos então quando existem níveis intelectuais diferenciados. Cada um verá a realidade segundo seu nível de desenvolvimento moral (ponto de vista). A uns, o que está sendo visto desperta  carinho, tristeza, pena enquanto no outro pode despertar, raiva, desamor, abandono. São variáveis as formas de ver uma realidade que parece objetiva, mas é altamente subjetiva. Cada um vê de acordo com seus esquemas, onde estão contidas experiências, preconceitos e toda gama de desenvolvimento.   Baudelaire, sem saber Piaget, descreve os seis olhos vendo o mesmo café com um olhar totalmente diferenciado. O adulto, já com a interpretação totalmente ligada aos valores do mundo, referindo-se ao brilho como ouro, algo não acessível ao mundo real dele. Ver os valores físicos que estão ali representados é um pensamento intuitivo. A criança não vê o valor monetário, mas o afetivo, de uma casa onde não pode entrar. Mostra que ele vê e sabe a distância de seu mundo. Aqui vemos representado o pensamento simbólico, muito pouco intuitivo. Representa o deslumbramento e a beleza dentro de seu pensamento simbólico. Esse pensamento consegue transformar o que vê em beleza, mesmo que ela não exista, usando “faz de conta” para resolver os problemas que venham a surgir. A criança simbólica consegue “não ver” a tristeza, mesmo que esteja em sua vida ou a sua volta. É uma forma de proteção de seu desenvolvimento. O mais jovem (bebê), não faz nenhuma interpretação e vê o mundo através de  suas sensações (sensório motor) apenas. Seus olhos manifestando a admiração, mas sem saber o que aquilo tudo representa.
Os dois observadores olham como a representação da humanidade. Um vendo pessoas sofridas admirando um mundo inalcançável, cheio de opulência e desperdício, sentindo-se ate envergonhado de estar naquela situação frente a tamanha pobreza. E o outro lado da humanidade, sem a menor sensibilidade, incomodada com olhares para ela sem representação afetiva, e sim de imposição de um mundo que ninguém quer ver.
Temos que olhar para ver. Não podemos passar ao largo dos acontecimentos e esconder embaixo do tapete as misérias de nossa sociedade injusta e sem distribuição de renda. Temos que desenvolver a moral de nossos alunos e filhos, para que eles vejam e se sensibilizem com o que esta acontecendo na nossa sociedade. A moral da cooperação indica o caminho da solidariedade. Não seremos nunca solidários sem este nível de moral. Por mais que amemos uma pessoa temos que dar a ela a chance de ter seu desenvolvimento para, ao invés de ter um  olhar paralelo ao nosso, tenha um olhar na mesma perspectiva cônica.
Estranho é que o que Baudelaire falou tudo isso a mais de 150 anos, e as mesmas coisas continuam acontecendo. Por que temos tanta dificuldade de desenvolvimento social? Falta educar o povo, para que possamos assistir um movimento igualitário dentro de nossa sociedade.