domingo, 27 de março de 2011

Bullying: revidar ou evitar?


Assisti pela internet, como milhares de outras pessoas, dois adolescentes se agredindo. Um deles bate sem aparente motivo e o outro, após varias agressões, se defende e joga o garoto no chão. Uma briga que poderia ser considerada comum se não fossem as entrevistas que se seguiram ao fato.

O pai e a irmã do garoto que se defendeu foram entrevistados e seus posicionamentos foram graves e devem ser analisados com atenção.
A irmã sabia que seu irmão, há muito tempo, sofria bullying na escola. Não tomou nenhuma providência, não foi à escola, não denunciou, não deu apoio a não ser falando que o garoto tinha que se defender. E disse ainda que ela também já teria sofrido bullying  quando estudava.
O pai, este um caso muito mais grave, de nada sabia. Como é possível?  Demonstrou que não conversa com seu filho e não tem nenhuma ligação com a escola de seu filho? Será que ele conhece os amigos do filho?  Saberia ele que o seu filho, de fato, não tinha amigos? Qual a expectativa deste pai para com seu filho?  Curiosamente, nenhuma destas perguntas foi feita a este pai. O repórter já tinha uma opinião formada para passar para o publico, e dirigiu o questionamento para os pontos de seu interesse.
Devemos analisar por que tantas pessoas no mundo inteiro consideraram este adolescente um herói. Por que a imprensa não entrevistou os educadores envolvidos para perguntar como foi que não notaram o que estava acontecendo dentro do ambiente escolar? Vendo a entrevista do agressor, notamos que também deve sofrer bullying na escola. Parece uma criança também com problemas e muito confusa.  Seu pai (solteiro) está altamente mobilizado pelo fato ocorrido e pela angústia de saber que seu filho pode ficar estigmatizado, já que toda milhares de pessoas ficaram a favor do agredido que se defendeu. Uma confusão só. Mas vamos tentar entender.
A base do bullying é essencialmente o preconceito. Os adolescentes referem-se uns aos outros por “aquele gordo”, ou “vara pau” (alto e magro), “pulginha” (baixo) e assim por diante. São preconceitos que deveriam começar a desaparecer por volta dos 7/8 anos. Começam a surgir aos 4/5 anos (período simbólico/intuitivo) e com a entrada nas operações concretas devem ir desaparecendo. Mas o que vemos são adolescentes altamente preconceituosos, provavelmente porque suas famílias são também preconceituosas. Nenhum adolescente permanece com um preconceito se não tiver o reforço de sua família.  Negligência é outro fato que dá espaço para a permanência de preconceitos, porque é uma posição mental em que ninguém reprime ou apresenta outras posições para que haja um questionamento por parte do adolescente. Para promover o desenvolvimento da moral, temos que trabalhar com as crianças em dinâmica de grupo, para que passem da heteronomia (receber ordens de fora) e possam chegar a autonomia (criar as ordens).
Não sei se estou entendendo, mas fico chocada de milhões de pessoas acharem que o garoto é um herói por que se defendeu. Vocês já imaginaram se a moda pega e todos passarmos a revidar as agressões que sofremos no dia a dia. Será que era ele que deveria se defender? Onde estavam os adultos? Onde estava a família? Onde estavam os Professores?
Tem idade para tudo (desenvolvimento). Nas primeiras fases do desenvolvimento, as crianças fazem o revide por que, do ponto de vista da moral, só entendem “dente por dente olho por olho” – você faz algo comigo tem que levar a retribuição. Mas com o desenvolvimento, as crianças e adolescentes vão entendendo que existem normas e, a fala, pode ser utilizada como defesa em muitas situações. Além disso, já é possível discernir o que foi feito propositadamente daquilo que foi feito sem intenção (o famoso “sem querer”). Nas primeiras fases do desenvolvimento mental, que vão até os 4/5 anos, tudo é interpretado como sendo “por querer”. Não existe a causalidade (não entende). Quando a criança cai, por volta de ate três anos, ele quer bater no chão por achar que houve ali intencionalidade de machucar.  Após esta fase começa a notar que, às vezes, pode esbarrar e se machucar sem haver intenção.
Quando vemos esta aprovação incondicional do revide, tudo nos leva a crer que as pessoas estão pensando como crianças com 7/8 anos de idade do desenvolvimento moral. E por que este atraso? Por que nossa sociedade é muito atrasada. Precisamos ainda de pessoas vigiando ou leis altamente definidoras de posturas, para não fazermos coisas contra o próximo e contra a sociedade, mesmo quando o bom senso deveria prevalecer evitando esse tipo de coisa. E mesmo assim, é complicado fazer com que sejam cumpridas.
Vocês devem perguntar então o que deveria ser feito?
Evitar que a situação se estabeleça, criando condições para que haja desenvolvimento da moral do adolescente. Isso demanda a interferência dos adultos, dos pais, dos irmãos mais velhos e dos educadores (professores e gestores escolares). Orientação, atendimentos às famílias e aos principais envolvidos – crianças e jovens. Orientação em sala de aula e observação do comportamento. Utilização de metodologias de combate a essa pratica tão disseminada, o bullying.
 Chegamos, portanto, a seguinte conclusão: ou desenvolvemos a moral ou não tem jeito. Cenas como essa se repetirão e mesmo outras piores poderão ser vistas. Se não fizermos uma estrutura sólida em nossa sociedade, vamos ficar fazendo emendas e reparos no casco do barco, mas ele vai afundar. Mais dia, menos dia.

Um comentário:

Arilza disse...

Excelente matéria.É muito preocupante tudo ainda mais que vivemos muna sociedade onde a familia está cada dia mais ausente.