sábado, 18 de agosto de 2018

Quem consome quem?

   Aquele antigo questionamento sobre ¨ter ou ser¨, de vez em quando bate à porta para nos lembrar de como é que a coisa pode sair do controle e perder o sentido, sem que haja real percepção de para onde estamos indo com determinados comportamentos.

   A família espera a chegada de uma criança com ansiedade, e talvez por isso, começa a compra do enxoval que ultrapassa em muito a necessidade que aquele ser realmente vai usar. Mesmo que permanecesse 10 anos com aquele corpinho de recém nascido, provavelmente o que foi comprado não seria usado. E são tantas compras feitas pelos pais que aquilo que é dado pelos parentes e amigos torna-se absolutamente desnecessário, aumentando o exagero. A criança, realmente, jamais usará a maior parte do que estará disponível, mas tudo é feito em nome do ¨não podemos deixar faltar nada¨.

   Existe ainda os que mantém o discurso de que ¨quero dar ao meu filho tudo o que não pude ter¨. E fica a pergunta: fez falta? O curioso é que o excesso é incontrolável, e mesmo assim, quanto mais recursos forem destinado a isso, melhor. Para algumas mães, é sinal de grande importância poder dizer que os filhos tem coisas que nunca usaram!  Criança não é objeto de consumo dos pais, embora haja uma cultura formada que ampara esse tipo de crença, e esse tipo de conduta vai deformar a maneira de a criança agir no meio social, ficando insuportáveis na medida em que não entendem ¨o outro¨ na medida em que o mundo gira em torno de si.     

   Quando os pais objetificam as crianças, a coisa vai mal. Aquela pequena criatura pode estar totalmente deslocada num determinado ambiente, mas ali é mantida porque o desejo dos pais prevalece, na concepção de que eles precisam mostrar a cria.

   Nesse caminho tortuoso, os brinquedos são , quase que totalmente, planejados e comprados pelos pais, servindo inclusive coo elemento de comparação de status no meio de amigos e parentes, mas nada é pensado em termos de servir para o desenvolvimento da criança. Para ela, caixas, garrafas pet, sucata em geral, fariam o mesmo efeito, mas os pais precisam oferecer brinquedos eletrônicos, carrinhos e motos com baterias elétricas, que não tem qualquer valor real para aqueles a quem se destinam, que os usam duas ou três vezes, abandonando em seguida porque não estão alinhados ao seu nível mental e portanto, aos seus interesses objetivos.

   Pais ficam orgulhosos contando que seus filhos em um iPod, sabendo usar das mais variadas maneiras, mas realmente essas crianças deveriam estar correndo, brincando de faz de conta... tudo o que a sociedade rejeita em nome do status e do alinhamento com aquilo que é aceito pelos pares.

   Em algum momento, começa a surgir um comportamento na criança que vai se agravando com o tempo, porque aquelas crianças que realmente não receberam a atenção necessária, aqueles bebês fofinhos que foram abraçados e beijados de zero até os dois anos, passam a ser ¨uns chatos¨, teimosos, não se submetendo totalmente às vontades alheias - mesmo e principalmente, dos pais. Mas o que teria acontecido? - perguntam-se aqueles que agora recebem o retorno daquilo que fizeram como ¨o melhor que podiam fazer¨.

   Ora, os pais não cresceram com os filhos até ali, não acompanharam, não tem uma dimensão do quanto a falta de uma ligação mais próxima e uma atenção dirigida podem resultar em modelos previsíveis de comportamento. E isso se grava quando a criança completa seus 7/8/9 anos de idade, acostumadas com o atendimento incondicional de suas vontades e com uma distância enorme dos pais - mesmo vivendo na mesma casa. Tornam-se um caos social, sem educação, sem interesses em jogos e brincadeiras compatíveis com seu nível de desenvolvimento, enfim, crianças tristes e sem socialização.

   Saramago disse que ¨seu filho está de empréstimo, porque ele NÃO É SEU. Precisamos tentar educar essa nova geração da maneira mais certa possível, porque sempre temos que ter em mente que adulto, não tem jeito. Não muda na essência.


terça-feira, 10 de julho de 2018

Liderança Emergencial


"Para haver competição - supõe McLuhan - é preciso haver similaridade entre os adversários e objetivos coincidentes. A extrema “especialização” tornará cada ser humano tão especial e único que, em vez de competição, haverá cooperação (complementaridade). É a ideia de Dinâmica de Grupo: a especialidade é do indivíduo; a cultura é do grupo." Lauro de Oliveira Lima





Dinâmica de Grupo -------------------------------------------
   Iniciar as crianças desde muito cedo na dinâmica de Grupo vai ser a solução para uma sociedade cooperativa e muito desenvolvida. Um grupo como dizia Teilhard De Chardin  tem algo que as partes não tem. Vamos colaborar com o crescimento social ensinando as as crianças a serem colaborativas. A competição é coisa do passado e não irá florescer mais.
   Todos os novos trabalhos precisam que as pessoas vejam os outros como seus parceiros. Tudo que realizamos em conjunto tem a responsabilidade distribuída. Devemos lembrar que a Liderança é Emergencial. Cada pessoa pode ser líder em algum momento da tarefa que está sendo executada. Deixar que cada um faça o melhor que sabe é de grande importância para cada tarefa. Escrevo bem sou o escritor, desenho bem sou o desenhista, coordeno bem sou o coordenador e assim por diante.
   As crianças fazem isso naturalmente, mas a medida que crescem começam a achar que devem estar em destaque a todo momento, orientadas que foram pelos adultos que as cercam. Deixando as sociedades infantis se desenvolverem veremos as lideranças. Quem melhor joga a bola é o chefe do time e pode não ser o chefe do trabalho de geografia.

sábado, 12 de maio de 2018

Crianças sem palavras

Economia de palavras ... ou melhor, pobreza de vocabulário mesmo. Fico me perguntando frequentemente, porque as crianças estão usando tão poucas palavras para se expressar e fico preocupada com nossa sociedade se deparando com enormes problemas de comunicação no futuro. Isso está associado também a falta de conhecimento sobre as coisas mais simples, que deveriam ter sido “descobertas”, mas permanecem na zona cinza do desconhecimento. É caso, por exemplo, dos animais. Num mundo cada vez mais interessado no assunto, na diversidade da fauna, nas relações ecológicas, me deparo com o fato de que a grande maioria não conhece centenas de animais – quando muito, dezenas apenas. E aqui estamos falando da identificação simples, sem nenhuma ciência, apenas a identificação imediata do indivíduo. No entanto, as crianças não sabem os nomes de insetos, aves e mesmo mamíferos que eram conhecidos (havia contato com eles) e que hoje são grandes desconhecidos da maioria. No caso das aves, a coisa é mais grave ainda. Sabem o que são algumas espécies e generalizam as restantes como se “ave” fosse uma espécie, mesmo com a evidente diferença entre todas elas.
Peixes então, coitados, são apenas “peixes”! Que eles estão sem referência de mundo é uma realidade, e isso não é bom. Nada bom. E estamos aqui falando das coisas mais simples, de fácil identificação. Quando observamos o uso dos verbos, advérbios, etc., aí sim, é uma pobreza total. Ficam sem poder interpretar um texto, quando leem, e o pior, chegam as Universidades por caminhos outros como apenas replicar conhecimentos decorados e sem qualquer relação com o desenvolvimento da inteligência.
Um elemento importante para esse desenvolvimento está na conversa entre pais e filhos, programas que estejam assistindo e coisas assim. Quando você vê uma criança repetindo frases feitas, que não tem qualquer significado maior para elas, é mal sinal, até porque usam mesmo sem contexto. Pode parecer engraçadinho em algum momento, mas a continuidade do processo leva a uma dificuldade enorme futuramente, na comunicação mais elementar. E isso vale para os relacionamentos, para o trabalho, nas amizades, enfim.
Outro dia observei meu neto saindo do restaurante ele tem 3 anos e disse ao garçom “Até breve”. Fiquei atenta para descobrir onde ele tinha ouvido e aprendido a expressão. Não tive surpresa: vinha de um desenho que ele costuma assistir no iPad. Empregou corretamente, mas não sabe o que significa até por que não tem ainda esta temporalidade. Este é o problema. As pessoas acreditam nesta fala “aprendida” (psitacismo = fala de papagaio). Temos que perguntar: o que quis dizer? É uma Tomada de consciência para saber se o vocabulário é realmente da criança.
Até o período simbólico/Intuitivo 3/4/5/6 anos devemos explorar uma quantidade enorme de verbos (ações) e substantivos (coisas) para ampliar bastante o universo infantil. Contar as histórias é muito importante e conversar com a criança sem adaptar o vocabulário. As crianças devem ouvir a linguagem natural da família. Não adianta as crianças falarem línguas estrangeiras com um vocabulário pobre em sua língua materna. Está na moda ensinar as línguas estrangeiras e ter uma criança com um pobre vocabulário em todas elas.
Veja outro exemplo: as cores. As crianças sabem as primárias e, às vezes, as secundárias até 4/5 anos. Deveriam já saber as terciarias e um espectro bem maior. Normalmente não se referem as cores com desenvoltura.
O fato é que as crianças e jovens falam muito mal e tem um pequeno vocabulário. Vamos trabalhar a leitura com estas crianças e contar histórias.
Nota: conversando com um amigo do meio empresarial, fui informada que uma das coisas mais importantes hoje, na contratação, é saber se o entrevistado na seleção fala e escreve bem o português. Isso surgiu naturalmente do fato de termos profissionais competentes em áreas técnicas que não conseguem se expressar minimamente bem. E isso faz toda a diferença.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Emprego x Criatividade


Que os empregos, tal como conhecemos, estão acabando … todo mundo já sabe. Pode não ter visto, pode não ter sentido ainda no seu círculo de relações, mas já tem certeza de que o “bom emprego” do futuro não tem mais nenhuma relação com aquilo que conhecemos. A coisa vai acontecendo no mundo todo, mas as providências para se adequar a uma nova realidade ainda são poucas - praticamente nada - e fico me perguntando se vamos esperar o caos se instalar para então começarmos a fazer alguma coisa.
Dados recentes (30 de abril de 2018) do relatório produzido pela OIT (Organização Internacional do Trabalho), batizado de “Mulheres e Homens na Economia Informal” informam que os empregos informais já representam mais de 60% das vagas em todo o mundo. No total, são mais de 2 bilhões de pessoas sem contratos fixos ou carteiras assinadas. Os dados não consideram pessoas fora do mercado de trabalho.
No texto da pesquisa, é citado que: “A informalidade se altera fortemente quando observadas as condições socioeconômicas dos países. Enquanto nas economias mais ricas, a média de vagas informais fica em 18,3%, nas em desenvolvimento e de menor renda o índice salta para 79%. Ou seja, um trabalhador vivendo em uma nação com economias mais frágeis têm quatro vezes mais chances de ficar em um posto informal do que aqueles em áreas com melhores indicadores.”
O final do relatório fala dos perigos do crescimento da informalidade como base de sustentação de uma nação e recomenda “facilitar a transição para postos formais, garantindo direitos e seguridade social; promover a sustentabilidade de empresas que oferecem vagas de qualidade; e prevenir processos que sirvam como vetores de estímulo ao crescimento de empregos informais”. Mas há mais coisas a serem feitas. Muito mais.
No âmbito das ações individuais, temos sempre em conta que queremos o melhor para nossos filhos, mas a base de uma economia sustentável passa pelo desenvolvimento das gerações para que possam enfrentar os desafios que se colocam pela frente com inteligência, criatividade, capacidade de solução de problemas, abertura para novos possíveis. E não é o que vemos na Educação que é oferecida. Burocrática, estática, desmotivante, sem inspiração ou capaz de gerar o mínimo de motivação, o modelo de Escola que temos nos leva “para trás” e não para o futuro. Mas é no futuro que está a  realidade de nossos filhos.
Precisamos urgentemente educar para a CRIATIVIDADE, mas estamos no contrafluxo disso. Os pais e responsáveis ainda continuam buscando os sistemas de ensino cheios de conteúdos atrasados que são ensinados em apostilas sem qualidade científica. Decorar a Tabela Periódica dos Elementos não vai levar a lugar algum. Desenvolver produtos com os elementos existentes, ou descobrir novos elementos, mudam tudo na história de vida de uma pessoa.
   Os professores, pressionados pela máquina de moer carne da escola, foram formados em sua grande maioria por faculdades de “baixos teores”, não se atualizam, não querem grandes mudanças em seus programas de aula e tem uma má vontade enorme com a massa descomunal de conhecimentos que vai se apresentando a cada dia. É quase como virar as costas para o tsunami para não ver o que vem por aí. Mantendo os olhos na direção contrária … acreditamos que está tudo bem e que não vai acontecer nada. Até a onda chegar...
   Curiosamente, o valor do modelo educacional estava exatamente em formar o cidadão para o “mundo conhecido”, baseando-se em modelos tradicionais de trabalho onde a “experiência” era muito valorizada. E entenda-se por “experiência” o fato de que o ideal era ter feito, durante muitos anos, a mesma coisa. Ter 30 anos de profissão valia muito no mercado de trabalho. Mas isso vem caindo em desuso, porque o que se pretende é que o indivíduo seja capaz de fazer mudanças a cada passo de sua carreira. O que era considerado como “irresponsabilidade” tornou-se um elemento fundamental no processo de evolução do indivíduo. E não temos mais regras fixas embora estejamos o tempo todo tentando manter aquilo que conhecemos como o “padrão”. Ser criativo é demandado, mas a base educacional não privilegia isso em momento algum. Para se avaliar a criatividade, é preciso ser, antes de mais nada, criativo. E isso está em falta.
As escolas tal como conhecemos, não tem a menor chance de formar profissionais para um mundo que sequer sabemos como será. Tal como desbravadores de mundos desconhecidos, temos que preparar nossos jovens com os meios para avançar, e não temos como dizer a direção. Os recursos são a inteligência e todos os seus desdobramentos possíveis. Essa é a mochila desses bravos do amanhã, porque se dermos nossas bússolas, mapas e convicções, falharemos em proporcionar uma jornada bem sucedida a eles.
   A informalidade vem de vários fatores, como a falta de oportunidades básicas, falta de políticas públicas, falta de uma linha de ação e investimentos na formação, mas tem como ponto final, mesmo quando o indivíduo tem condições de arcar com custos de educação, saúde, segurança, mobilidade e todos os demais, a ortodoxia do modelo de educação que é “comprado”. Modelo que não avança, mas fica para trás de tudo o que hoje tem significado de sucesso na sociedade do amanhã.
E finalmente, chega-se ao ponto de avaliar qual o “valor” real que seu filho terá no futuro. Como não fazer com que ele esteja no caminho dos mais de 13 milhões de desempregados que hoje, em 2018, pululam por dois anos num ambiente de angústia e incerteza, que em muitos casos deságua na depressão?
   Quando se vê o que a indústria tem a dizer sobre sua evolução, vamos entendendo um pouco mais sobre aptidões demandadas não no futuro, mas já, e que não são possibilidades concretas para a maioria. Como se sabe, um dos segmentos econômicos mais sensíveis às mudanças é a Indústria, sendo também o ambiente de melhores salários e condições de trabalho. Observar que chegamos à Indústria 4.0 é assustador em vários aspectos, porque o modelo é inteiramente novo. Uma das bases da nova indústria é “a organização do processo de produção baseada em tecnologia e dispositivos autônomos que se comunicam entre si ao longo da cadeia de valor”. Ou ainda “As diferenças entre indústria e serviços tornam-se menos relevantes conforme tecnologias digitais estão conectadas com produtos e serviços (híbridos), que não são nem bens nem serviços exclusivamente”.
   Não temos mais um modelo “fechado” em nenhuma área econômica, científica, técnica… temos todas as possibilidades em aberto. Valor passa a ser estar em condições de navegar nos possíveis e não nos conhecidos caminhos. E é claro que tudo o mais que a sociedade precisa vai continuar existindo, mas perdendo capacidade de gerar riqueza. É só observar as profissões que vão desaparecendo lentamente, até sua total extinção. Ou outras que mantém o nome mas não tem mais nada a ver com o que já foram um dia. Ser um profissional gráfico na atualidade não tem relação alguma com o gráfico de vinte anos atrás. E isso vale para uma quantidade enorme de profissões.
Assim, é recomendável observar com atenção o que estão fazendo com seus filhos, sob seu consentimento. Se você não tem certeza do que fazer, procure quem saiba. Se estão entrunchando as crianças com conteúdos, há algo de errado aí. Se a criatividade não é foco na educação de seu filho, cuidado. Só restará lugar para o criativo nos tempos que virão - e isso não é uma profecia, mas sim uma certeza (aliás, das poucas que podemos ter). Tenha como padrão de avaliação a condição de que seu filho esteja sendo preparado para a solução de problemas, a grande ferramenta para enfrentar o desconhecido por oferecer novas formas para se viver.
   Estar empregado será uma arte. Mas encontrar novas formas de trabalho e renda vai ser o grande desafio. A nova ordenação do mundo está por ser feita, e quem a fará são nossos filhos, netos e bisnetos. Vamos colaborar para que eles consigam ser mais do que repetidores de modelos ultrapassados, e que possam ser felizes, com qualidade de vida, em uma sociedade melhor.
   O tempo para isso está se esgotando.

domingo, 15 de abril de 2018

Inteligência Digital


   O termo "inteligência", tem sido usado de muitos modos, mas não há um consenso sobre quando aplicar de forma definitiva o conceito. Tanto que em mais de uma vez, tenta-se dar uma imagem falsa a um determinado produto dizendo que o mesmo é "inteligente". No mais das vezes, é apenas um upgrade para uma câmera, uma habilidade que um equipamento tem, um sistema de temporização ligado a um termostato, e por aí vai. Mas ... não existe inteligência nesses moldes, porque ainda estamos longe de emular aquilo que a natureza nos proporcionou como seres humanos. E quando digo "longe", não me arrisco a botar prazo para isso, até porque estamos vendo avanços incomuns na evolução da chamada "inteligência artificial", a tal I.A., que vem sendo discutida e, em alguns casos, transformada em ameaça por grandes nomes do mundo da tecnologia. Mas isso é outra questão. De fato, não temos, mesmo na Inteligência Artificial, uma estrutura tão complexa que permita a equiparação com a inteligência humana.
   Mas, o que seria essa Inteligência? Não houve um entendimento claro, por parte dos estudiosos da área, de que temos cinco níveis de inteligência: a Sensório Motora, a Simbólica, a Intuitiva, a Operatória Concreta e a Operatória Abstrata, e essas etapas estão em desenvolvimento contínuo desde o nascimento até a adolescência. Todos os conhecimentos e afetos vão sendo desenvolvidos com esses modelos. Esse foi o trabalho de uma vida de Jean Piaget, que identificou claramente, com bases científicas comprovadas, as fronteiras de transição entre uma e outra fase (ou nível), estabelecendo testes que conseguem identificar claramente o estágio de desenvolvimento em que se encontra o indivíduo. Lauro de Oliveira Lima, a partir desses estudos, criou o Método Psicogenético, formalizando os meios para o pleno desenvolvimento do indivíduo a partir de atividades que estimulem o atingimento dos níveis superiores da inteligência. A partir da inteligência em seu nível mais alto, é possível se atingir todos os graus de aplicação da mesma, seja em que área for, razão pela qual esse nível é denominado de Operatório Abstrato - por motivos óbvios.
   O que seria, então,  a propalada “inteligência digital”?
   Atualmente, as crianças começam a utilizar equipamentos digitais muito cedo, e os mesmos são oferecidos como forma de entretenimento, liberando os pais ou responsáveis para outras atividades, visto o estado de imersão que as crianças atingem na interação com a tecnologia. Esse estado de transe, que tablets, smartphones e outros gadgets conseguem estabelecer não são, evidentemente, capazes de produzir melhoria da inteligência humana, até pelos limites que tem, mesmo quando chamados “inteligentes”, e embora mantenham as crianças “quietas”, não acrescentam grande coisa a vida delas. Ou quase nada. Mais “lucro” tem os pais, pela liberdade de fazer coisas que estão dentro da sua linha de interesse direto. Mas vejam… se forem oferecidas atividades “no nível da criança”, elas vão se ligar muito mais e atingir um grau de satisfação muito maior.
   Proponha que elas brinquem ao ar livre, oferecendo atividades  com estratégias motoras, nos primeiros anos de vida. Na segunda fase, contar histórias, ir ao teatro, cinema ou qualquer atividade que tenha representação criam um enorme interesse e envolvimento. Na fase intuitiva, que antecede às operações, as experiências ganham força e as crianças gostam de experimentar quando atingem esse nível. Mas, infelizmente, suas casas normalmente não tem elementos motivadores para isso - o que nos leva a pensar em quanto é preciso estruturar a casa para as crianças e não apenas para nosso gosto pessoal em decoração ou organização doméstica.
   Nas operações, os jogos com regra são o destaque … mas geralmente as crianças não tem com quem jogar. Muitas famílias até compram os jogos, tendo noção de que os mesmos foram muito úteis na formação dos adultos de hoje, mas o fato é que ninguém se mobiliza para ser parceiro da criança nessa atividade. As famílias nucleares diminuíram muito, e as crianças ficam sem companheiros para essas brincadeiras. E sempre é bom lembrar que “brincar é o trabalho da criança”. Aqueles que ainda tem irmãos, se deparam com o problema de que geralmente são de idades bem diferentes, em virtude do planejamento familiar dos pais, atendendo às suas perspectivas de vida e não a dos irmãos em um desenvolvimento conjunto.
   E o que sobra então? Os aparelhos digitais, para um entretenimento de horas e horas… 
Bom, oferecer equipamentos digitais às crianças não criam um novo tipo de inteligência. Ponto. Falar com elas sobre os perigos do mundo digital, também não, até porque você pode estar tratando de um assunto fora do nível de compreensão dela. No início da adolescência, informar sobre os riscos e abusos que acontecem é importante, porque nessa etapa da vida, nos dias de hoje e para o futuro, é impossível para eles não estarem imersos no mundo digital, já que a sociedade migrou para esse modelo por todos os motivos que conhecemos. Mas viver o mundo digital não significa o desenvolvimento de inteligência. Ou de uma “inteligência” específica. Trata-se da Inteligência Abstrata (estágio de desenvolvimento) usando novos instrumentos, e todos os novos instrumentos que surgem são extensões do homem, como disse Lauro de Oliveira Lima. O homem vai se apropriando de todas as inovações que aparecem, dentro do seu nível de desenvolvimento.
   Não se tem ainda uma certeza maior sobre malefícios ou benefícios desses aparelhos no desenvolvimento das crianças, mas como disse Jean Piaget: “No começo está a ação”. Enfim, as crianças precisam “fazer”, e os aparelhos não são procedurais mas sim presentativos. O usuário usa realmente a percepção.
   Mas os equipamentos eletrônicos NÃO SUBSTITUEM outras crianças nas sociedades infantis. É no momento da interação entre elas que surge o equilíbrio cognitivo e afetivo.       Assim, quanto mais tarde expusermos as crianças a todo esse arsenal tecnológico disponível, mais tempo de desenvolvimento mental e afetivo elas terão, aí sim desenvolvendo sua inteligência e atingindo estádios de desenvolvimento mais amplos e elevados. Em seguida, que venha o mundo.
   Uma boa sugestão é introduzir o uso de equipamentos eletrônicos na pré-adolescência, sem preocupação, pois eles vão aprender em alguns dias o que seus pais levaram meses para dominar. E é nessa fase que eles entendem as conversas sobre os riscos do mundo digital porque a linguagem deles, nesse período, terá atingido o diálogo.
O que estiver disponível para uma pessoa será usado de acordo com o seu nível de inteligência. Não há como burlar essa condição ou mesmo enfeitar o fato de que a criança está sendo precoce. Ela vai tirar de um iPhone o que pode, e isso não é nenhum fenômeno. Espantoso é os pais acharem que descobriram a maneira ideal de manter seus filhos quietos com isso.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Onde começa a corrupção?

   Corrupção começa em cima? Ou em baixo? De onde vem essa praga que nos assola por todos os lados, e que parece impossível de ser eliminada? Uma das coisas que mais vemos é a reclamação dirigida contra os políticos, contra os governos, sejam eles quais forem, mas ela não nasce ali. Pode até florescer, encontrar campo fértil para seu desenvolvimento pleno, mas aquele não é o estágio inicial. Na verdade, as mesmas pessoas que reclamam em altos brados contra a corrupção são, em princípio, as geradoras de autorizações explícitas, quando não promotoras e incentivadoras da corrupção. Essa "doença social" tem início em casa, quando uma criança é subornada para fazer alguma coisa - ou deixar de fazer alguma coisa, quando recebe um "prêmio" (outra maneira de dizer "propina") ... Ora, premiar não é crime, mas é preciso que haja uma relação de mérito x valor, caso contrário a coisa desanda desde cedo. Percebam que as crianças já não obedecem mais os pais ou outros adultos pela heteronomia (ordem vem de fora), sabendo que podem barganhar, na medida em que alguma coisa será oferecida em troca de sua obediência.
   Pais e adultos estão, geralmente, sem paciência para educar, de fato, as crianças, e assim nada é levado até o limite onde a conversa poderia gerar uma experiência positiva, que no final das contas vai ser o balizador do comportamento futuro dessas crianças. Um caso clássico de que não há mais envolvimento na tarefa de educar é a fácil observação de pais que "fingem" não estar vendo o comportamento antissocial de seus filhos nos mais variados ambientes. Crianças pisam no pé de uma pessoa próxima, e os pais "não viram". Derramam o conteúdo de seus copos nas mesas de restaurantes e lanchonetes, mas os pais continuam suas conversas ao celular... A sensação geral é que as crianças estão ficando insuportáveis e socialmente inadequadas no convívio. Em alguns casos, crianças são vistas gritando com seus pais enquanto eles parecem não ouvir, não tomando qualquer providência a respeito.
   Quando acontece de existir uma pessoa, como eu, que está sempre disposta a educar, e que chama a atenção da criança, os pais ficam em posição de desculpas, e ainda assim não fazem nada com relação a questão principal: o comportamento do filho. Ao que tudo indica, ficam envergonhados com o "comportamento alheio", quando o alheio é o resultado da criação dos próprios - no limite,  deles mesmos.
 Na Escola, a observação do comportamento dos alunos identifica claramente o que se passa em casa. Por exemplo, as crianças pequenas apresentam, muitas vezes, um comportamento agressivo para com a professora, e se analisarmos mais a fundo, veremos que elas tem o mesmo comportamento com relação às mães, que tem em muitos casos, mesmo quando tentam corrigir os pequenos, são desqualificadas pelos pais na frente das crianças. Todas essas leituras vão moldando um comportamento que não se encaixa naquilo que queremos para nossa sociedade e para a vida de relação. É urgente que se chegue a um acordo sério sobre como levar adiante um trabalho integrado de educação dos filhos.
Toda essa enorme quantidade de informações que vão sendo observadas pelas crianças, formam um filtro perverso que é usado pela vida toda, e que com o crescimento da criança, só se agravam, porque estão firmes na mente. Aí vemos os casos dos adolescentes descontrolados e adultos amorais… e não sabemos porque isso acontece.
A corrupção é silenciosamente instalada em nosso sistema de avaliação das relações, desde quando um aluno copia o trabalho da internet e recebe como estímulo para isso um sorriso matreiro dos pais, que sabem o que está acontecendo mas permitem essa “esperteza” porque o objetivo final é a nota e a promoção de ano. A corrupção vai tomando forma quando transformam a mentira em algo válido, como por exemplo, quando é dito para a criança “não comentar” na escola algo que foi falado no ambiente familiar. Quando se obtém um atestado falso de saúde para justificar a falta do aluno, imaginando que isso passa despercebido dele. Não se engane: tudo isso é corrupção, e o pior, um aprendizado espetacular sobre como praticá-la sem medo.
As crianças estarão com seus pais quando eles “cortam caminho” pelo acostamento das avenidas e estradas, quando eles jogam lixo nas ruas, quando passam por sinais fechados, andam sem cinto de segurança, param em vagas destinadas a pessoas com necessidades especiais. E a coisa fica mais grave quando ocorre a transgressão (estacionar em vaga para deficientes) e justificar que pode porque é rapidinho. Vá somando tudo isso e veja o curso avançado que está sendo oferecido à criança ao longo de sua formação. Os resultados, todos conhecemos e abominamos … mas é preciso não criar o operador.
Tenha cuidado, esteja atento ao que você ensina ao seu filho, porque o mundo, cada vez mais, não será de corruptos - e isso não é utopia! Até porque ninguém aguenta mais tanto parasitismo instalado no organismo que denominamos sociedade. Pode ser muito difícil corrigir um adulto corrupto, mas certamente é bem mais fácil não levarmos uma criança até essa condição abjeta.
No final das contas, produzimos nossa própria safra de corruptos, que em algum momento serão os sanguessugas de todos os esforços que coletivamente fazemos, em prol de seu enriquecimento pessoal. Forme seres que sejam bem sucedidos por mérito, por criatividade, por uso produtivo e íntegro da inteligência e com lastro moral para entender o mundo que teremos pela frente, e você verá como vai ser desnecessário sair gritando por aí “Fora … (escolha o nome para colocar aqui). Educar é uma coisa extenuante, mas vale a pena.
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domingo, 4 de fevereiro de 2018

Prova: a provação

   Vou vendo o frenesi de jovens e, inevitavelmente, me pego pensando sobre o que é uma PROVA. No âmbito escolar, é claro. Estamos tão acostumados ao massacre que ninguém percebe que esse é um procedimento completamente falido e que não “mede” nada no final das contas. Todo o nosso sistema de ensino está baseado nessas avaliações sem sentido, e quem sofre o maior desgaste são as crianças e adolescentes.
   Como pode haver um “instrumento” de precisão tal que reprova por centésimos, na avaliação de desempenho intelectual de um ser humano? E ainda mais se aplicado por pessoas que, na maior parte das vezes, não tem qualquer embasamento científico…
   Para os pais, a sensação de que é a única maneira de verificar se os filhos serão ou não “alguém na vida”. E embora não se comprometam com o dia a dia dos estudos dos filhos, nunca cobrando nada sobre as tarefas escolares ou trabalhos, quando chegam as provas, resolvem ficar extremamente dedicados na avaliação do filhos. Muita confiança num sistema escolar que, no final das contas, não está resolvendo o principal problema que é o desenvolvimento da inteligência. O pai, por desconhecimento do tema, entra na mesma vibração de todo o processo, ou seja, quer nota e alta.
   Vai haver um momento na história da humanidade, em que uma reformulação de porte será feita, para que a escola chegue ao nível de avaliação do aluno de forma permanente, em cada tarefa realizada pelo aluno correspondendo a uma pequena avaliação que, somada a todas as demais, dirá ao final de um período sobre sua competência para seguir o caminho.
   UMA PROVA NADA MEDE. Um momento do processo não traduz a verdadeira competência do aluno. Somente a avaliação diária dos jovens é que vai refletir o seu desenvolvimento. Dá mais trabalho? Dá. Mas e daí? A escola está mexendo na base de uma vida inteira de milhões de seres humanos, o tempo todo.
   O desenvolvimento cognitivo precisa ser avaliado, mas isso esbarra em toda a formação de educadores, que são preparados para atuar numa linha reta, que ignora completamente a individualidade e os estágios evolutivos. Fica mais fácil avaliar o que foi “armazenado”, do que o que foi “desenvolvido”, e o absurdo torna-se valor e é institucionalizado. Armazenamento não é inteligência, e isso precisa ser dito de maneira repetida até o final dos tempos ou pelo menos até que mudem os critérios de avaliação nas escolas. Tudo o que é atualmente apresentado para ser “decorado” pode ser encontrado por meio de um smartphone na vastidão da internet, mas como se sabe, se os elementos não puderem ser organizados para um fim, não tem valor algum. Tanto que, pela seletividade natural do cérebro, visando evitar gastos energéticos maiores, o que não tem aplicação vai sendo rapidamente esquecido - e ainda bem que é assim. A decisão de valor estabelece o que vai ficar por mais tempo consumindo uma área nobre do órgão mais nobre dos seres humanos, e certamente o nome de todos os afluentes do Rio Amazonas não faz parte disso. Caso contrário você, leitor, saberia todos, porque certamente decorou isso.
   Uma prova ideal, seria aquela que propõe problemas lógicos, que devem ser pensados e sem estabelecer conteúdos específicos. Tudo o que o aluno for forçado a “aprender”, impede que ele invente ou descubra, e isso é de uma gravidade enorme porque o papel do jovem, na sociedade, é transformar, inventar e não reproduzir o que já foi estabelecido. As provas, sendo simples reprodução do conhecimento acumulado pela humanidade, não permitem esse movimento mental. E o conhecimento estará sempre à disposição de todos aqueles que precisem de informações para agir sobre o meio.
   Não estamos mais na condição de que, para perpetuar a informação, era preciso que a mesma fosse guardada na mente das pessoas, e que essas transmitissem de geração para geração exatamente a mesma coisa. Gutenberg, ao inventar o tipo móvel e a impressão em larga escala, tirou o trabalho de muita gente que vivia de repetir o mesmo. A consulta ao livro tornou o repetidor desnecessário. Hoje, a informação está disponível de uma maneira que nos afoga, em certos momentos. O que se espera é que o indivíduo possa tornar melhor o mundo, fazendo com que aquilo que sempre foi feito de uma determinada maneira, possa ser feito de maneira muito melhor, mais barata, com menor consumo de energia e disponível para acesso rápido.
   Ser criativo é a grande exigência do mundo nesse momento da história da humanidade e agora é tempo de pensar, de reinventar, de ser disruptivo, de avançar para fronteiras jamais imaginadas. O tempo em que ficamos ensinando o mesmo e fazendo provas para ver se aquele conteúdo “tinha entrado na cabeça “de nossos alunos, acabou. Professores, cuidado para não se tornarem desnecessários em algum momento, sem perceberem. Pais, estudem as opções de futuro para que seus filhos tenham chance de alcançar o sucesso no mundo em que eles irão viver. Escolas, parem de repetir o modelo fracassado e se reinventem para que tenhamos uma chance maior daqui a vinte anos. O Brasil também depende disso.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Reflexões Valeparaibanas - Episódio 05

E vamos em frente com as reflexões feitas durante um feriado em Guaratinguetá, às margens do Rio Paraíba...


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Reflexões Valeparaibanas episódio 4

No episódio 4, o tema foi inovação. Como ser criativo num mundo em que todo o processo de desenvolvimento é focado em conteúdos congelados?


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Reflexões Valeparaibanas - Episódio 3

Reflexões Valeparaibanas. Beta e Nelson discutindo o futuro a partir das suas experiências multidisplinares.
PARTE 3 - continuação