sábado, 11 de dezembro de 2010

As Idéias Vivem em Bandos

“A história se repete” é um conceito usado freqüentemente, e de fato se repete. Quando a mídia traz matéria sobre o que seriam “inovações”, mas que na verdade são conceitos conhecidos a mais de 40 anos, vejo que o mote tem lá sua razão. Dinâmica de Grupo  no Brasil tem uma história interessante. Meu pai, Lauro de Oliveira Lima, criou um método de treinamento que aplicou em todo o Brasil, nas mais diversas empresas e entidades, com resultados poderosos para a produtividade e a qualidade organizacional. Makro, Universidades Federais, jornais, uma infinidade de organizações fizeram treinamentos com ele e os gestores daquela época, que implementaram a cultura de DG em suas organizações, até hoje são unânimes em falar dos excelentes resultados que tiveram.
A experiência brasileira no setor foi tão bem sucedida, que posteriormente dei continuidade a divulgação dessa poderosa ferramenta com apresentações feitas no México, num encontro internacional promovido pela UNESCO sobre o tema, bem como em outros eventos nacionais e internacionais dos quais participei. Hoje, trabalho com Dinâmica de Grupo tanto na Escola “A Chave do Tamanho” quanto em projetos para empresas de vários portes, em diversas regiões do Brasil.
Recentemente li uma excelente matéria publicada na Revista GALILEU baseada no livro “De onde vêm as boas idéias - A história Natural da Inovação”, de Steven Johnson, que tem lançamento previsto para o Brasil para meados de 2011, onde o autor analisou importantes invenções dos últimos 700 anos, passando pela teoria darwinista e pelo surgimento da web. Entre outras coisas interessantes, uma que considerei particularmente importante foi a noção de que “inovação não é coisa de gênio”. Isso é ótimo de ver, porque para quem estuda Piaget em profundidade, fica claro que não existem gênios. Isso contraria muitas crenças populares, que procuram explicar o desempenho excepcional de alguns indivíduos como dons inatos ou capacidade cerebral sobrenatural. Na falta de coisa melhor, fica essa explicação no imaginário coletivo. Mas, certamente, isso não existe.
Quando alguém chega um nível de desenvolvimento mental antes dos outros, não quer dizer que é melhor do que os outros. Apenas é mais rápido. Quando todos aqueles que estão no mesmo contexto de comparação chegarem ao mesmo nível de desenvolvimento mental, desaparece a vantagem obtida pela rapidez, porque todos estarão igualados naquele nível.
As inovações nascem de ambientes que favorecem a comunicação, e esse é o motivo pelo qual Dinâmica de Grupo tem grande importância para que ocorram fatores facilitadores para a criação. Dinâmica de grupo trata da confrontação das idéias, da empatia (ver as coisas do ponto de vista do outro), da tomada de consciência de que existem outras idéias além das suas. Da abertura para todos os possíveis.
Para ter um filho genial, por exemplo, junte-o a outros que pensem juntos, como um único cérebro. Isso provoca situações inesperadas que geram idéias sensacionais. Em nosso mundo de hoje, dificilmente teremos criações individuais geniais, sendo mais prováveis que não tenhamos mais Einsteins, Da Vinci´s ou Darwin´s, pois a globalização colocou o mundo de tal maneira interconectado que ao invés de longos esforços individuais para atingir o ponto da criação o que vemos são situações de complementaridade, onde (a) e (b) vêem algo em (c) e realizam juntos algo que não havia sido ainda imaginado. E tem funcionado bem, em todas as áreas. Deixar as pessoas pensarem e fundamental e desafiá-las também. Uma pessoa muito criativa colocada em um ambiente estéril, provavelmente vai aderir a “não produtividade” que o ambiente sugere.
As idéias são gestadas, como tudo em biologia, daí ser preciso dar muita importância a criatividade e promover o conceito entre as crianças e adolescentes. Importante que disponham de  cadernos ou laptops para anotarem idéias , pensamentos, leituras, descobertas e invenções. Devem reler constantemente o que escreveram para que haja a possibilidade de reformulação. Assim,  estas simples anotações viram  formulações cientificas. As anotações não precisam ser ordenadas, organizadas ou seqüenciais. São simplesmente notas que depois irão servir à reflexão.
As idéias são sempre combinatórias de várias outras,  daí ser tão importante ler, mas ler tudo que aparece e sobre estas leituras formular idéias próprias (combinatórias). Fazer questões sobre o que está sendo lido para que as conclusões sejam inovadoras.
T.Chardin  já disse que “ o grupo tem algo que as partes não tem”, mas o que isso quer dizer? O grupo pensa melhor do que cada um de seus membros isoladamente. Por isso as empresas e escolas que promovam o encontro das crianças e profissionais em grupo terão seu potencial altamente desenvolvido, pois a gestação de idéias é inevitável. Os grupos conseguem, pelo agrupamento de idéias, tirar conclusões que um só elemento talvez chegasse, mas em muitos mais anos de trabalho isolado. O grupo e rápido.
Para ter idéias, as crianças precisam chegar às  conservações e reversibilidade, isto é, pensar do ponto de vista do outro (iniciam por volta dos 7/8 anos). Este tipo de pensamento é que permite que mudemos de paradigma, ou seja, mesmo que estejamos pensando de uma forma podemos mudar a maneira como vemos o problema, usando nossa disciplina intelectual para isso. Assim podemos chegar a novas soluções que não haviam sido pensadas.
As idéias estão no mundo e só precisam se juntar, e isso pode ser feito com o uso de  Dinâmica de Grupo. Com isso,  as idéias  tomam um caminho novo que não estava previsto.  No mundo das idéias não existe o erro, por isso é importante trabalhar com as crianças e adolescentes no sentido de se lançarem sem medo, pois tudo que concluírem poderá ser aproveitado. O erro é simplesmente um estágio de gestação que será modificado a cada nova descoberta. As idéias devem ser comunicadas a todos e num ambiente aberto, onde todos opinam em tudo. Quando mais  especializado é um indivíduo, menos idéias tem.  Devemos ouvir todos em todas as áreas para poder construir o novo,  que vem exatamente do livre pensar.
O método psicogenético é a tradução deste pensamento, na medida em que as crianças e adolescentes estão constantemente sendo desafiadas a pensar de forma diferente sobre tudo o que já foi pensado. Um exemplo disso é entender que já esta escrito nos livros que o corpo humano se divide em três partes (cabeca, tronco e membros); proponha que o grupo encontre outra maneira de dividi-lo e explique por que. Estes desafios descongelam o pensamento e dizem aos jovens que, no pensar, vale tudo.

Beta

Um comentário:

Adilson disse...

A Beta estava inspirada ao escrever este texto. Realmente a combinação de Dinâmica de Grupo e o método Psicogenético, ambos de Prof. Lauro, é combustível para viagem intergaláctica.