terça-feira, 27 de setembro de 2011

Nosocômio ou manicômio?




A palavra hospital vem do latim "hospes", que significa hóspede, dando origem a "hospitalis" e a "hospitium" que designavam o lugar onde se hospedavam na Antigüidade, além de enfermos, viajantes e peregrinos. Quando o estabelecimento se ocupava dos pobres, incuráveis e insanos, a designação era de"hospitium", ou seja, hospício, que por muito tempo foi usado para designar hospital de psiquiatria.
Estar em um hospital, hoje em dia, não tem praticamente nada do glamour de se sentir um hóspede – e em alguns casos, eles estão mais para “hospitium” do que para local de cura. Estou acompanhando meu pai, Lauro de Oliveira Lima, numa internação e vejo que atualmente, quando um idoso é internado, há uma idéia entre o corpo de atendimento de que, além de debilitado pela doença, o paciente ficou demente e não vai entender nada do que está acontecendo. O abandono é uma coisa impressionante! Por definição, para médicos e enfermeiros, idoso tem Alzheimer, e aí fica fácil tratas de quem não está, em princípio, entendendo nada.
Estando numa clínica particular, fiquei impressionada com a similaridade entre o sistema de saúde e o sistema educacional, na medida em que tanto o público quanto o privado padecem de uma falta enorme de estrutura, treinamento, envolvimento e comprometimento. Criou-se um modelo onde os funcionários fazem plantões em estabelecimentos diversos e com isso chegam, muitas vezes, cansados para começar uma jornada de seis horas ou mesmo de vinte e quatro horas. Mau humor, expressões como “estou fazendo o melhor que posso”, falta de treinamento, desleixo, falhas básicas, tudo isso é comum no dia a dia de um paciente internado. Para não dizer o pior, que sempre pode acontecer e para o que o acompanhante precisa estar atento. Isso acontece com professores que dão aulas de manhã a noite, diariamente, para compor seu salário e com profissionais de saúde, na mesma medida.  O modelo está errado, com certeza, em ambos os ambientes.
Uma coisa fácil de observar é que falta qualidade na preparação desses profissionais e isso chama a atenção para as falhas na formação dos mesmos. Além das aulas do curso de medicina, por exemplo, médicos deviam conhecer mais sobre psicologia, porque está mais do que provado que um relacionamento positivo entre cuidador e cuidado aumente em muito as possibilidades de cura. Dentistas deveriam estar atentos a isso, para diminuir os casos de odontofobia tão comuns nos dias de hoje, decorrentes de falta de sensibilidade desses profissionais no trato de crianças, gerando traumas irreversíveis e conseqüências previsíveis no âmbito da saúde bucal.
A impressão que dá é que o médico precisa ser apenas um burocrata com uma especialidade. Tive a experiência negativa de assistir um médico perguntando a uma acompanhante de paciente de CTI se ele já estava melhor, para poder dar alta. Ora, se o acompanhante pode decidir isso, para que  o médico então?
Algumas pessoas tentam explicar o que acontece de maneira simplista, dizendo que o médico, de tanto lidar com a doença, banaliza as ocorrências que assiste no dia a dia, mas isso não justifica o comportamento. Numa escola, por exemplo, quando recebemos uma criança, fazemos como se fosse a primeira porque sabemos que ela é única, um ser humano sobre nossa responsabilidade. O mesmo deveria acontecer na medicina: respeitar o doente como único ... mas não é o que acontece.
E olha que estou falando de hospital na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, do qual espera-se excelência de atendimento. O que imaginar de um atendimento nos confins da Amazônia ou no sertão nordestino!?  Hospitais sem um gerente de projeto, com uma administração fria, pessoal sem empatia, todos tratados como números de um cadastro sem vida! Será que não percebem a necessidade de treinamento, de desenvolvimento de inteligência emocional?
É desesperador necessitar deste serviço, que mais se parece uma paródia tragicômica. Nada funciona. Alimentação não é controlada e limpeza nem se fala. Falta tudo porque não tem controle de qualidade. Vejam não estou falando de SUS. Esta é a rede privada. Não entendo a falta de controle também dos planos de saúde.
Curioso é que os médicos ficam sabendo dos pacientes através de uma tabela anotada pelos auxiliares de enfermagem (técnicos). Será que os médicos não deveriam olhar, eles mesmos, estes pacientes.
Deixando de olhar o problema da educação caímos no da saúde. Será que tem jeito nosso país? O ministro da saúde pede mais 40 e tantos milhões, mas não diz quais as providencias para sustar a sangria feita pelo roubo em sua área.  Será que ele acha que somos bobos e não vemos tudo que é roubado de sua pasta? Se ele estancar a sangria do roubo teremos muito dinheiro para trabalhar. O grande problema é a corrupção. Se a rede privada está assim...
O povo tem direito a saúde. Não é de graça porque são nossos impostos que custeiam o sistema. Estes senhores são todos nossos funcionários, embora achem que são “funcionários públicos”. Públicos de quem?

Um comentário:

Odorico Ribeiro disse...

Oi Beta, certamente é lamentável que num mundo onde a sociedade está conformada por seres que se autodefinem como humanos, ainda estejamos nessa etapa tão primitiva, onde também a vida humana é somente mais uma fonte de lucro. Numa etapa do desenvolvimento do homem onde sejamos mais inteligentes e possamos ser realmente chamados de humanos, a medicina será um sacerdócio. Poder salvar vidas é uma verdadeira bendição e ainda nem nos percatamos dessa realidade tão simples. Por favor manda um abraço bem forte para o Lauro.