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sexta-feira, 3 de maio de 2013

Alfabetização aos 8 anos

Oito anos… uma idade mágica para os legisladores, porque trataram de uma questão altamente complexa – o momento de alfabetizar – como um elemento meramente burocrático. Sim, porque o que diz que uma criança está ou não pronta para ser alfabetizada não é a data de nascimento, mas sim o seu nível de desenvolvimento mental. Quando é que vão entender isso??? Sim, oito anos não foi uma aposta muito longe da realidade, porque é entre os 6 e 8 anos que as crianças conservam o número, sendo essa a estrutura mental que proporciona as condições de alfabetização lógica às crianças. Ou seja, atiraram no que viram e acertaram no que não viram. Se nesse caso deu certo, por mera casualidade, em todos os demais dá errado, ou seja, estipulam a idade em que as coisas devem ser ensinadas e não querem saber se isso vai funcionar ou não. O ser humano adora sistematizar, porque esse é um modelo que deu certo em grande parte da história da humanidade, mas é preciso não fazer isso compulsivamente, correndo-se o risco de cometer barbaridades meramente porque “tem que ser assim”,  e pronto. Quem diz se uma criança está pronta para aprender ou não determinada coisa é seu nível de desenvolvimento mental, nada mais. O que acontece, no mais das vezes, é que acabam obrigando a criança a entender uma coisa para a qual não tem esquema. É como pegar uma pessoa fora de forma e obrigar a escalar uma montanha. A possibilidade de dar tudo errado é enorme! Mas isso não é considerado na Educação.

   No caso da alfabetização, por exemplo, a grande dica é trabalhar o pensamento matemático, porque a partir daí a criança segue em frente sem problemas. No entanto, as crianças acabam muitas vezes o curso fundamental sem saber as quatro operações. Frações? Nem pensar... Ninguém parece saber que existe o pensamento infralógico e que precisa ser trabalhado para criar um pensamento matemático consistente. Ou seja, marcam idade para alfabetizar, marcam idade para ensinar matemática, e nada funciona no final das contas, até porque é tudo desassociado quando deveria ser totalmente interligado. O cérebro humano não entende o que os calendários escolares estão querendo dizer e se comporta da maneira mais natural possível, qual seja, desenvolvendo cada etapa de acordo com suas possibilidades. E quando não há colaboração para isso, ele vai do jeito que der.
Uma coisa é certa: alfabetizar uma criança para ela não ler é simplesmente criminoso. Pais, professores, diretores, todos deveriam estar engajados nesse enorme esforço de fazer acontecer a alfabetização, porque tudo o que vem “depois” depende disso. Uma alfabetização inadequada gera não-leitores, que sem a leitura não irão muito longe
No fim das contas, alfabetização é tão somente um know-how. Temos que nos preocupar é em como vamos usar a leitura a partir daí, em prol do desenvolvimento de sua inteligência.

sábado, 10 de março de 2012

Crianças Infelizes



Embora já muito observado de forma empírica por todos nós, fiquei mal impressionada ao confirmar em matérias e mesmo em pesquisas sérias, que as famílias estão deixando de lado a preocupação com a felicidade das crianças impondo a elas problemas que tradicionalmente sempre foram dos adultos.
Quando Rousseau disse que “a criança não é um adulto em miniatura” estava convidando a uma mudança radical de abordagem, onde a sociedade poderia ver as crianças através de uma nova ótica, realmente infantil. Nesse novo ambiente de consciência da infância e de suas necessidades próprias, as crianças passaram a se vestir como crianças e a ter direito de brincar! Antes disso, eram meros objetos de decoração, vestidas com requinte – lembrando bonecos – e sem qualquer direito, frente a rigidez da sociedade.
A pesquisa a que me refiro foi feita no Reino Unido, foi analisada pela Coordenadora da Unidade de Psiquiatria da Infância e da Adolescência da Universidade Federal de São Paulo, que sinalizou que tanto lá quanto cá, os problemas são os mesmos. As crianças andam deprimidas, sobrecarregadas, ansiosas, estressadas e desconfortáveis com a infância. Nota-se que os direitos delas estão garantidos no papel, mas não na ação.
Temos que ver as causas que levam a isso e as soluções que podem ser dadas. Percebe-se que, entre os motivos dessa situação, temos uma sociedade adulta pressionando para que as crianças entrem, rapidamente, nos padrões estabelecidos pela mesma, enquanto sabemos que as crianças durante toda a infância têm padrões próprios. Ainda hoje, a sociedade espera que as crianças adquiram comportamentos semelhantes aos dos adultos rapidamente, vistam-se como adultos e tenham atitudes de adultos. Desconhecem que “brincar é o trabalho das crianças”, e forçam situações para que elas entrem logo no mundo dos adultos, provavelmente para deixarem de “dar trabalho”.
As roupas das crianças são imitações das roupas adultas sem que qualquer adaptação seja feita para uso infantil. E ainda há uma tendência a achar que as crianças devem entender tudo o que os adultos que a rodeiam querem, ignorando que as crianças tem outra forma de pensar, como tenho afirmado em vários artigos que tenho postado no blog. Neles, falo insistentemente que a criança passa por várias fases de desenvolvimento, e que só completa aos 13/14/15 anos, quando adquire o pensamento abstrato formal. Os adultos lidam com uma criança de 3/4 anos explicando conceitos lógicos, querendo que elas façam representações através das danças e músicas tipicamente de adultos. Isso é a mesma coisa que amestrar um animalzinho! Deixar a criança crescer, cumprindo todas as etapas do seu desenvolvimento (do sensório motor até as operações abstratas) requer muito sabedoria.
Criança feliz é aquela cujos adultos permitem que seja criança. Não sobrecarregar as crianças com obrigações que satisfaçam basicamente aos adultos, é uma norma que deve ser vista com determinação. A sobrecarga afetiva também deve ser suavizada, não criando uma responsabilidade adicional ás crianças pelo afeto aos pais e familiares. Usar as crianças  dentro do jogo afetivo, também é uma foram de torná-las infelizes. Não sabendo a quem agradar, a criança se confunde e acaba por tornar-se um adolescente, e futuramente, um adulto inseguro.
Criança tem direitos e deveres, mas tem que ser protegidas, pois ainda não conseguem determinar as coisas de sua vida. Elas precisam ser guiadas da infância para a heteronomia (ordens que vem de fora). Temos que deixar as crianças viverem sua infância, aguardando que elas amadureçam.
Acredite que as crianças agradecem se a sociedade deixar que elas vivenciem cada etapa do seu desenvolvimento. Não podemos pedir pensamento lógico antes dos 7 ou 8 anos. Elas simplesmente não entendem as relações de causa e efeito. O homem é o animal com a infância mais longa na escala zoológica, mas também é o que tem a infância mais desrespeitada.
É um engano perseverar na ideia de que criança feliz é aquela que faz o que quer. Para a criança, a verdadeira felicidade é ser amada e orientada. Precisamos seguir esse caminho para termos crianças verdadeiramente felizes.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

RESPONSABILIDADE: ASSUMA A SUA


Você chega em casa, cansado de um dia de trabalho, todas as aporrinhações do mundo batendo à sua porta, e vem seu filho e diz que precisa conversar. Você senta no sofá e se coloca a disposição para o papo.
- Olha, tomei algumas medidas para tornar minha vida do jeito que eu quero, e vou falar agora sobre as coisas que tenho em mente. Preparado?
- Pode falar filho.
- Primeiro, não tomo mais remédio para bronquite. O gosto é ruim, e eu acho que é melhor tomar o remédio de reumatismo da vovó que tem sabor cereja.
- Certo filho, que mais.
- Não vou mais a fisioterapia porque acho que o braço que eu quebrei está bom, e inclusive vou tirar o gesso hoje na banheira, como vi na internet.
- Certo filho, você é quem sabe.
- E vou passar um tempo na casa de um amigo que mora num quilombo para entender umas coisas que não consegui entender. Não me esperem para o Natal.
- Tá bom filho, você decide. A responsabilidade é sua.
Fácil assim não é mesmo? Mas imagino que as coisas não se desenrolassem dessa maneira, porque as decisões estariam sendo tomadas por alguém que, aos 10 ou 12 anos não teria condições de medir as consequências de seus atos.
No entanto, ao contrário do que poderia acontecer a 20 anos atrás, tenho visto muitos, mas muitos pais mesmo, deixando os filhos decidirem sobre a escola em que vão estudar. É uma transferência de responsabilidade grave, porque a mesma determina o futuro dos filhos sendo que eles não tem a menor condição de fazer a opção mais adequada. Seria o mesmo que permitir que as coisas se desenrolassem como no diálogo acima, ou mesmo obrigar a criança a escolher seu médico. Nosso papel como pais e responsáveis é exatamente o de suprir aquilo que as crianças não tem condições de fazer. Por isso existe a figura jurídica do “abandono de incapaz”, quando expomos crianças a situações que elas não podem resolver sózinhas e ficam em risco de vida por conta disso.
A diferença entre deixar uma criança trancada no carro quando se vai às compras e permitir que ela decida sobre seu futuro num momento em que não tem condições, é praticamente nenhuma. Até porque, depois de tomado o caminho, anos depois, quando se constatar o desastre, será tarde demais para tentar consertar qualquer coisa.
O fato é que, normalmente, reagimos rapidamente e de forma eficaz quando vemos alguma coisa física, como uma fratura ou machucado, ou mesmo uma tosse ou febre. No entanto, quando estamos lidando com o sofrimento psicológico, as reações são mais lentas ou mesmo inexistentes. E o sofrimento existirá, em algum momento, se a criança fizer a opção, e não o adulto. Se nós já erramos bastante por falta de conhecimento, de tempo, de interesse objetivo, imagine alguém que não tem elementos minimos para tratar do assunto com consistência?
Bem, como educadora, recomendo enfaticamente a postura firme nessa hora, com uma decisão madura e orientada dos pais. A falta de valores e determinação vai acarretar em problemas, mais cedo ou mais tarde. Chega a hora em que temos, como pais, que ser firmes e dizer “você vai fazer isso”! Caso contrário, fica até mais fácil dizer ao filho, quando tudo der errado, “foi você quem decidiu”. Mas vamos e venhamos: isso é não assumir a responsabilidade e ter que arcar com as consequências do mesmo jeito.
Vamos escolher para nossos filhos e dizer a eles que temos a convicção do que é o melhor para eles naquele momento. Escola não é ítem de consumo como roupa ou sapato, mas sim o elemento mais importante na formação deles. É na escola que ele vai desenvolver coisas essenciais, como a MORAL ou a ÉTICA. Só a educação tem o poder transformador em uma sociedade. Não escolha a escola apenas pela aparência, mas principalmente veja a ideologia.